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Noções de Taxonomia

1.     A CLASSIFICAÇÃO DOS SERES VIVOS

Os seres vivos são classificados por meio de critérios pre estabelecidos, isto é, usamos regras de classificação[1] de acordo com a necessidade e com o sistema de classificação adotado.

A área da Biologia que estuda a classificação dos seres vivos é denominada taxonomia.

Nas ciências, a classificação dos objetos, elementos químicos e dos seres vivos é feita para facilitar o estudo das diversas áreas do conhecimento, como a Biologia, a Química, a Física, entre outras.

No estudo dos seres vivos, notamos uma enorme biodiversidade, diferentes formas de vida com diferentes hábitats e complexos mecanismos de adaptações[2] aos ecossistemas[3] de nossa biosfera[4].

Ao longo da história da classificação dos seres vivos, os critérios e os sistemas de classificação adotados sempre estiveram vinculados ao conhecimento disponível sobre as diferentes espécies[5] em diferentes épocas.

É evidente a dependência que sempre ocorreu entre a elaboração de critérios de classificação e o conhecimento da morfologia, da anatomia, da fisiologia, bioquímica, desenvolvimento embrionário e aspectos evolutivos que caracterizam as diferentes espécies.

A história dos sistemas de classificação biológica acompanhou a evolução da construção dos microscópios[6] ao longo do tempo.

O conhecimento da organização microscópica das células trouxe subsídios para elaboração de diferentes sistemas de classificação.

Somente com o microscópio é que os cientistas puderam definir a célula, conhecer sua organização procariótica e eucariótica,  a organização das células  em  tecidos, diferenciar célula animal de vegetal, conhecer as organelas citoplasmáticas e assim por diante. Assim, os sistemas de classificação dos seres vivos, desde a época de Aristóteles[7] até os dias de hoje, sofreram muitas mudanças, o que caracteriza a taxonomia como uma ciência muito dinâmica no campo das ciências biológicas.


[1] Regras de Classificação. Regras que são preestabelecidas para descrever uma espécie num sistema de classificação: cada espécie recebe um nome científico, num sistema binomial, de acordo com essa regras. 

[2] Adaptações. Adaptação-Capacidade de sobrevivência de uma espécie a determinadas condições ambientais. A capacidade de sobrevivência está relacionada às características biológicas presentes na espécie.

[3] Ecossistemas. Nível de organização em ecologia que relaciona o ambiente físico e a comunidade biológica (seres vivos) que nele vivem.

[4] Biosfera. É o planeta Terra, é o conjunto de todos os ecossistemas terrestres.

[5] Espécies. Espécie-Unidade do sistema de classificação biológica É o conjunto de organismos com características semelhantes, intercruzáveis que podem deixar descendentes férteis.

[6] Microscópios. Aparelho que permite a observação de microorganismos ou células de dimensões muito reduzidas. 

[7] Aristóteles. Filósofo grego que viveu de 384 a 322 a.C. e classificou os animais em dois grandes grupos: animais com sangue e animais sem sangue.

A primeira tentativa de classificação foi feita pelo filósofo grego Aristóteles (384 – 322 a.C.), considerado o “pai da zoologia”, que indicou como os animais poderiam ser agrupados de acordo com suas características. Seus trabalhos serviram de base para uma classificação que dividia os animais conhecidos como vertebrados, ou animais de sangue vermelho, e invertebrados, ou animais sem sangue vermelho, e foram utilizados por cerca de 2 000 anos.

Na metade do século XVII, o inglês John Ray (1627-1705) tentou catalogar e dispor sistematicamente todos os organismos do mundo. Foi também o primeiro a usar o termo espécie para designar um certo tipo de organismo.

Os sistemas de classificação utilizados até o começo do século XVIII tinham algo em comum: eram apoiados em um número extremamente limitado de características dos organismos que estavam sendo analisados. Assim, por exemplo, surgiu uma classificação que dividia os animais de acordo com sua forma de locomoção: caminhantes, saltadores, voadores, nadadores.

Os inconvenientes de uma divisão como essa são óbvios, pois um mesmo grupo pode conter seres muito diferentes, contrariando o objetivo principal da classificação. Por exemplo: insetos, pássaros e morcegos são animais voadores. Apesar de muito diferentes quanto à sua estrutura, ficam no mesmo grupo por terem uma única característica comum: o fato de poderem voar.

Sistemas de classificação como esse, que utilizam um único critério para separar os organismos em grupos, ficaram conhecidos como artificiais, pois faziam uso apenas dos caracteres macroscópicos.

Entretanto, a partir do século XVIII, os sistemas de classificação tornaram-se naturais, usando critérios objetivos com dados fornecidos pela morfologia, fisiologia, ecologia e embriologia. Tais sistemas trouxeram duas importantes vantagens: primeiro, o fato de os organismos serem separados em grupos com base em múltiplas características assegura que fiquem reunidos seres realmente semelhantes, satisfazendo os objetos de classificação; segundo, realiza-se a divisão dos organismos com base em seu parentesco evolutivo, refletindo a filogenia, que é a história evolutiva de um grupo.

Carlos Linnaeus, ou simplesmente Lineu[8] (1707 – 1778), foi um dos primeiros pesquisadores a propor um sistema de classificação natural. Em 1758, no seu Systema Naturae, dividiu os animais conhecidos em mamíferos, aves, anfíbios (incluíram os répteis), peixes, insetos e vermes (que incluíam todos os outros invertebrados), subdividindo cada grupo até as espécies. Propôs também regras para a nomenclatura dos seres vivos com o uso de palavras latinas. Lineu viveu antes de Darwin e, portanto, antes do estabelecimento da Teoria da Evolução[9].


[8] Lineu . Botânico sueco que viveu de 1707 a 1778 e elaborou o sistema natural de classificação biológica.

[9] Teoria da Evolução. Explicação da evolução biológica dos seres vivos. A teoria evolucionista aceita no meio científico é o Darwinismo (Darwin), complementada pelo Neodarwinismo.

Além do mais, era conhecida uma diversidade muito menor de animais, em sua maioria vertebrados, quando sabemos hoje que os invertebrados representam cerca de 95% das espécies conhecidas. Por isso, seu sistema de classificação apresentava muitas limitações. Apesar disso, o princípio de seu sistema foi a base para o atual método de classificação, estabelecido graças a diversos trabalhos realizados nos séculos seguintes.

2.     O SIST. DE CLASSIFICAÇÃO DOS CINCO REINOS

As tentativas de ordenar e classificar os animais produziram um ramo da Biologia conhecido como Taxonomia ou Biologia Sistemática, que procura determinar as regras e os princípios que regem a moderna classificação. A Taxonomia apresenta duas subdivisões importantes: a classificação, que é o arranjo dos tipos de seres vivos em uma hierarquia de grupos menores e maiores; e a nomenclatura, que é o método de  dar  nomes  aos tipos de seres vivos a serem classificados. Sua finalidade é mostrar níveis de parentesco entre os organismos, baseado na evolução; entretanto, devido a muitas falhas no conhecimento deste assunto, surgem muitas interpretações e, portanto, uma certa discórdia entre os biólogos taxonomistas quanto a parentescos e grupos aos quais os seres devem pertencer.

Isso significa que a classificação não é uniforme e pode variar de acordo com as idéias de cada autor.

Hoje, utilizamos o sistema de classificação de Whittaker, elaborado em 1969, no qual os seres vivos foram divididos em cinco reinos: reino Monera, Protista, Fungi, Animal e Vegetal.

O esquema a seguir mostra o sistema de classificação de cinco reinos. Nessa classificação, são adotados critérios de organização celular (procarionte e eucarionte) e modos de alimentação, como ingestão nos animais e absorção de nutrientes pelos fungos. A idéia é que as formas mais simples de organização seriam os ancestrais das formas mais organizadas, como Protista, Fungi, Animal e Vegetal.

O sistema de classificação dos seres vivos em cinco reinos.

2.1        REINOS

A moderna classificação biológica divide os organismos da natureza em grandes grupos denominados reinos. Em um reino encontramos uma enorme variedade de seres com apenas algumas poucas características comuns. Essa divisão já era feita por Lineu e, por muito tempo, todos os organismos eram classificados em dois reinos: animal e vegetal. As plantas fazem fotossíntese e são geralmente imóveis, enquanto os animais precisam obter alimento comendo plantas ou outros animais e, geralmente, movimentam-se. Tal divisão é muito cômoda quando se consideram plantas e animais de grande porte. Os problemas maiores surgiram com o aperfeiçoamento do microscópio comum e o desenvolvimento da microscopia eletrônica[10], além da aplicação de técnicas bioquímicas ao estudo das semelhanças e diferenças entre os organismos. Tudo isso ampliou o universo dos seres conhecidos e levou à criação de novos reinos. As classificações mais recentes admitem a existência de cinco reinosMonera, Protista, Fungi, Metaphyta ou Plantae ou Vegetal e Metazoa ou Animalia ou Animal.

2.1.1        reino Monera

Compreende as bactérias e cianobactérias (algas azuis), organismos que têm em comum o fato de serem unicelulares e procariontes, ou seja, estão ausentes de sua célula a membrana nuclear e as organelas citoplasmáticas membranosas.

Representantes do Reino Monera

Bactérias

Cianobactérias

2.1.2        Reino Protista 

Compreende algas e protozoários, seres geralmente unicelulares (algumas algas são pluricelulares) e sempre eucariontes (que são aqueles cujas células contêm membrana nuclear e organelas citoplasmáticas membranosas). Nos protistas pluricelulares (como já se disse, os únicos protistas pluricelulares são algumas espécies de algas), as células não se organizam para formar tecidos.

Representantes do Reino Protista

Alga Laminaria

Ameba


[10] Microscopia Eletrônica. Microscópio Eletrônico – Aparelho que apresenta um poder de resolução muito maior que o microscópio comum e que pode fornecer imagens com aumento maior que 100 000 vezes.

2.1.3        Reino Fungi

Os fungos são organismos que mesclam características encontradas em seres de outros reinos. Embora existam formas unicelulares, a maioria de seus representantes, com destaque para os bolores, mofos e cogumelos, é pluricelular. Entretanto, não apresentam tecidos definidos.

Seu corpo é constituído de um emaranhado de filamentos denominados hifas, formados por células eucarióticas. Apesar de heterótrofos e armazenadores de açúcares tipicamente animais, possuem uma estrutura corporal e reprodução semelhante às dos vegetais.

Representantes do Reino Fungi

Cogumelo – Basidiomiceto

Orelha-de-pau: Basidiomiceto

2.1.4        Reino Metaphyta ( Plantae )

As plantas são seres pluricelulares, eucariontes e suas células se organizam em tecidos de funções específicas. Nas plantas existem tecidos de proteção, sustentação, condução de seiva e parênquimas. Além disso, são todas autótrofas, produzindo o próprio alimento pela realização da fotossíntese, e suas células são revestidas por uma parede celular composta de celulose.

Representante do Reino Metaphyta

Gimnosperma (Cyca)

2.1.5        Reino Metazoa ( Animalia )

Os animais também são pluricelulares, eucariontes e dotados de tecidos, mas são heterótrofos e dependem de outros seres para se alimentar. Além disso são geralmente dotados de sistema nervoso, que facilita sua integração orgânica com meio exterior.

Os tecidos animais são: epiteliais (de proteção), conjuntivos, muscular e nervoso.

Representantes do Reino Metazoa

Peixes

Répteis

Mamíferos

Aves

Características dos grandes grupos de organismos (Curtis,1977)

3.     AS CATEGORIAS TAXONÔMICAS

As categorias taxonômicas são grupos de tamanhos variáveis nos quais os organismos são incluídos de acordo com a quantidade de semelhanças que apresentam. Formam uma escala hierarquizada: as categorias maiores abrangem as menores de uma forma sucessiva. O reino é a maior categoria utilizada na classificação biológica. A menor categoria chama-se espécie, termo que usualmente é usado para indicar um certo tipo de ser vivo, mas que pode ser melhor definida como “um grupo de organismos extremamente semelhantes, que apresentam em suas células a mesma quantidade de cromossomos[11] e que podem se cruzar, produzindo descendentes férteis[12]”. A espécie é a unidade básica da classificação biológica.  Os indivíduos de uma mesma espécie possuem o máximo de caracteres em comum, incluindo grande similaridade bioquímica e o mesmo cariótipo[13] (cromossomos iguais em número, forma e tamanho), como resultado de terem se originado de um antepassado evolutivo comum. Geralmente, indivíduos de espécies diferentes não se cruzam, embora, ocasionalmente, sejam produzidos híbridos[14] estéreis entre espécies diferentes. Como exemplo bem conhecido, existe o caso do jumento e da égua, indivíduos de espécies diferentes que podem se cruzar em cativeiro, mas cujos descendentes, o burro e a mula, são estéreis. Entre os vegetais, existem casos em que cruzamentos entre plantas de espécies diferentes podem originar híbridos férteis.


[11] Cromossomos. Do ponto de vista genético, o cromossomo é uma seqüência de genes; do ponto de vista citológico o cromossomo é a associação de proteína e DNA (gene).

[12] Descendentes férteis. Indivíduo com capacidade de reprodução e de deixar novos descendentes.

[13] Cariótipo. Estudo dos cromossomos quanto ao número, forma, tamanho e posição dos centrômeros.

[14] Híbridos. Indivíduo resultante de cruzamento entre seres de espécies diferentes.

O total de indivíduos que compõem uma espécie pode ser subdividido em grupos denominados subespécies[15], diferentes uma das outras pelo fato de ocuparem áreas distintas. Se, por alguma razão, duas subespécies ficarem impedidas de trocarem genes, a tendência é que as diferenças entre elas se acentuem com o passar do tempo e que passem a constituir novas espécies.


[15] Subespécies. Categoria taxonômica abaixo da espécie. Também pode ser chamada de raça ou variedade.

Entre o nível de espécie e o nível de reino, Lineu e outros taxonomistas acrescentaram várias categorias. Assim, duas ou mais espécies que tenham um certo número de caracteres comuns constituem um gênero.

Por sua vez, gêneros com caracteres comuns formam uma família; as famílias são reunidas em ordens; as ordens, em classes; as classes, em filos. Todos os filos semelhantes constituem um reino. Conforme se avança de espécie para reino, ou seja, da menor categoria para a maior categoria, passando pelos vários níveis intermediários, a diversidade entre os seres vai aumentando, e, em contrapartida, a quantidade de semelhanças entre eles vai diminuindo. As categorias taxonômicas fundamentais podem ser subdividas ou reunidas em várias outras, como os subgêneros e as superfamílias.

A tabela ao abaixo mostra a classificação de alguns seres vivos bem conhecidos, considerando-se as sete categorias taxonômicas fundamentais.

A figura acima mostra que a categoria de classificação denominada reino é a mais abrangente, a que reúne maior diversidade biológica, e a categoria espécie é onde existe maior especificidade de caracteres, reunindo organismos semelhantes com capacidade reprodutiva dentro de uma única espécie.

A seguir, representamos a classificação biológica da espécie Felis catus, desde a categoria reino até a categoria espécie.

Observe o diagrama que mostra a classificação do gato doméstico, Felis catus, procedendo da categoria mais geral (reino) para a mais restrita (espécie). Animais representativos são mostrados em cada nível, e, quando um animal é eliminado de um grupo, isso indica que ele pertence a uma categoria diferente. Por exemplo, o tigre, o urso e o gato pertencem à ordem Carnívora, mas o gato pertence à família Felidae. Assim, o cão e o urso são eliminados quando atingimos o grupo que representa a família Felidae.

4.          NOMENCLATURA BINOMIAL

Os primeiros zoólogos elaboravam classificações com uma nomenclatura particular, para uso próprio. Dessa forma, um mesmo ser vivo, estudado por vários cientistas, poderia receber inúmeros nomes distintos, dentro de um mesmo país ou entre países diferentes, em razão das diferenças de idioma. O cão doméstico, por exemplo, é conhecido por mais de 800 nomes diferentes no mundo todo: dog (inglês), chien (francês), cane (italiano), perro (espanhol), inu (japonês), etc. O uso de nomes populares ou vulgares, como também são conhecidos, provoca inúmeras confusões, que podem comprometer inclusive a correta identificação do organismo. Por exemplo: o peixe-boi, na verdade, é um mamífero, enquanto o cavalo-marinho é um peixe.

Para acabar com a confusão resultante dessa situação, foi adotada para os seres vivos uma nomenclatura única universal, fundamentada em regras internacionais, adotadas a partir de 1901, com base nos trabalhos feitos por Lineu no século XVIII. As principais regras são as seguintes:

1) Os nomes científicos devem ser escritos em latim e com destaque. O destaque pode ser o itálico, o negrito ou sublinhado.

Cão – Canis familiaris

Canis familiaris

Canis familiaris

Homem - Homo sapiens

Homo sapiens

Homo sapiens

A escrita em latim evita variação do nome científico das espécies, pois o latim é uma língua “morta”, isto é, não é mais utilizada e, portanto, não há mudanças em seu modo de escrever.

2) A nomenclatura é binomial, ou seja, todo ser vivo deve ter o seu nome científico com pelo menos duas palavras: a primeira para o gênero e a segunda para a espécie.

No exemplo da Araucaria angustifolia (pinheiro-do-paraná), Araucaria é o nome do gênero e o conjunto dos dois nomes (Araucaria angustifolia) designa a espécie. É errado utilizar o segundo nome isoladamente.

3) O nome do gênero é um substantivo e deve ser escrito com inicial maiúscula, enquanto o nome da espécie é um adjetivo e deve ser escrito com inicial minúscula. Exemplo: Felis catus (gato).

4) Quando existe subespécie, o nome que a designa deve ser escrito depois do nome da espécie, sempre com inicial minúscula. Exemplo: Rhea americana alba (ema branca).

5) Quando existe subgênero, o nome que o designa deve ser escrito depois do nome do gênero, entre parênteses e com inicial maiúscula. Exemplo: Anopheles (Nyssorhinchus) darlingi (mosquito-prego, transmissor da malária).

6) Em trabalhos científicos, depois do nome do animal, coloca-se o nome do autor que o descreveu. Quaisquer outras indicações, como o ano em que o animal foi descrito, podem se escritas na seqüência, após uma vírgula. Exemplo: bactéria causadora da sífilis =Treponema pallidum Schaudinn & Hoffmann, 1905.

7) O nome da família é feito pela adição da terminação –IDAE ao radical correspondente ao nome do gênero-tipo (aquele mais característico da família). Para subfamília a terminação usada é –INAE e para superfamília é –OIDEA. Exemplos:
cão = gênero Canis, família Canidae; cascavel = gêneroCrotalus, subfamília Crotalinae; lombriga = gêneroAscaris, superfamília Ascaroidea. Entre vegetais, no entanto, os nomes das famílias costumam apresentar a terminação –ACEAE. Exemplos: palmeira e coqueiro = família Palmaceae; alho e cebola = família Liliaceae.

Fonte: Sistema COC de Educação

Protozoários

LEITURA COMPLEMENTAR

1     NOÇÕES DE PARASITOLOGIA E DOENÇAS CAUSADAS POR PROTOZOÁRIOS

Parasitismo é uma associação entre seres de diferentes espécies envolvendo o parasita e o hospedeiro. O parasita vive sobre ou dentro do hospedeiro, utilizando-o como fonte de nutrientes e energia e ao mesmo tempo como hábitat.

O Brasil é um país onde as condições de vida da maior parte da população favorecem o estabelecimento de doenças parasitárias, muitas delas bastante graves. Condições socioeconômicas precárias, deficiência de estrutura de saneamento básico e falta de informação são características de grande parcela da população de nosso país. O caráter tropical de nosso clima também favorece a disseminação de uma grande variedade de parasitas. É muito importante o conhecimento de tais parasitoses para que se possa evitá-las e também buscar formas adequadas de combatê-las ou ao menos reduzir sua incidência.

2     ORIGEM DO PARASITISMO E ADAPTAÇÕES

As relações entre os seres vivos da natureza variam muito, desde a colaboração mútua (mutualismo) até o canibalismo.

O parasitismo provavelmente ocorreu quando na evolução de uma destas associações um organismo menor foi selecionado por ter melhores condições de proteção e obtenção de alimento. Por meio de diversas adaptações, o parasita foi se tornando cada vez mais dependente do hospedeiro. As principais adaptações à vida parasitária são:

• degeneração de diversas estruturas corporais, com perda ou atrofia de órgãos locomotores, do aparelho digestivo, de órgãos sensitivos, etc;

• mecanismos de fixação ao hospedeiro, como ventosas e ganchos;

elevada capacidade reprodutiva, com produção de grande número de ovos, cistos ou outras formas infectantes;

• ocorrência de formas reprodutivas que facilitem a fecundação ou tornem mais segura a reprodução da espécie, como hermafroditismo, partenogênese, poliembrionia, esquizogonia, etc;

• mecanismos de resistência contra as agressões do hospedeiro, como a cutícula, usada como tegumento (aquilo que reveste o corpo do homem ou dos animais – a pele, o pêlo, etc.) protetor;

• grande faixa de tolerância a variações de pH, podendo sobreviver em meio ácido, básico ou neutro;

muita reserva energética celular, na forma de glicogênio e lipídio;

• processos anaeróbicos (ausência de O2) de obtenção de energia.

A vida do parasita é grandemente facilitada pela associação com o hospedeiro; por isso, muitos órgãos presentes nos seres de vida livre simplesmente não existem nos parasitas. O parasitismo é uma associação que tende ao equilíbrio, pois a morte do hospedeiro é prejudicial ao parasita. A vida do parasita depende da sobrevivência do hospedeiro; logo, não é interessante que o parasita cause a sua morte, embora a ação parasitária geralmente provoque danos à sua vida. Aliás, nas espécies em que essa associação vem sendo mantida há milhares de anos, raramente o parasita leva o hospedeiro à morte. Assim, por exemplo, o tatu, que é o hospedeiro natural do protozoário Trypanosoma cruzi, não morre devido a esse parasitismo. Já o ser humano pode morrer pela doença de Chagas provocada por esse organismo. Outro exemplo: em regiões onde a malária é comum, o número de mortes na população local é baixo; no entanto, pessoas de fora que chegam à região podem adquirir a doença em sua forma mais violenta.

3     CONCEITOS BÁSICOS

Em parasitologia é comum a utilização de certos termos que caracterizam a doença em questão.

3.1     Agente Etiológico

É o agente causador da doença, o responsável pela sua origem, podendo ser vírus, bactéria, protozoário, verme, etc.

3.2     Agente Vetor

É o agente responsável pela transmissão do parasita entre dois hospedeiros, podendo ser um organismo vivo ou um veículo não vivo, como água e alimentos contaminados.

3.3     Sintomas

São as manifestações que afetam o indivíduo doente e permitem muitas vezes o diagnóstico da doença.

3.4     Profilaxia

É o conjunto de medidas que visam à prevenção, erradicação ou controle da doença.

3.5     Hospedeiro Definitivo

É o indivíduo que apresenta o parasita em fase adulta ou atividade sexual.

3.6     Hospedeiro Intermediário

É o indivíduo que apresenta o parasita na fase larval ou assexuada.

3.7     Endoparasita

É o parasita que vive dentro do corpo do hospedeiro. (bactérias, vírus, vermes)

3.8     Ectoparasita

É o parasita que vive aderido à superfície exterior do corpo do hospedeiro. (pulgão, carrapato)

3.9     Parasita Monoxeno

É o parasita que apresenta somente hospedeiro definitivo.

3.10     Parasita Heteroxeno

É o parasita que apresenta hospedeiro definitivo e intermediário (às vezes mais de um).

3.11     Epidemia

Ocorrência, em uma certa região, de casos que superam nitidamente a incidência esperada de uma doença. Pode atingir um grande número de indivíduos em um curto intervalo de tempo.

3.12     Endemia

Doença cuja incidência permanece constante por muitos anos em uma certa área, sugerindo um equilíbrio entre a doença e a população. Normalmente, atinge um número limitado de indivíduos por um longo período de tempo.

3.13     Protozoonoses

São as doenças provocadas por protozoários parasitas. As principais são: doença de Chagas, malária, amebíase, entre outras.

3.14     Verminoses

São as doenças causadas por vermes parasitas (platelmintos e nematelmintos). As principais são: esquistossomose, teníase, ascaridíase, amarelão, entre outras.

PROTOZOÁRIOS

1     APRESENTAÇÃO

Os primeiros animais a habitarem a Terra praticamente não deixaram restos ou vestígios que permitissem a identificação de sua forma. Entretanto, existem hoje certos seres que, segundo se acredita, seriam semelhantes àqueles primeiros animais da Terra. Tais organismos são os protozoários (do grego protos = primeiro; zoon = animal). Constituem um grupo heterogêneo de cerca de 50.000 espécies de organismos unicelulares eucarióticos. Por serem móveis e heterótrofos[1], este conjunto de organismos tradicionalmente é estudado dentro da Zoologia, embora não possam ser considerados animais. Os sistemas de classificação geralmente os consideram membros do reino Protista. O grupo dos protozoários chama a atenção pela enorme diversidade de formas que apresenta, com ampla variação em termos de complexidade estrutural e adaptação para inúmeros tipos de condições ambientais. Vivem preferencialmente em lugares úmidos, seja no mar, na água doce ou no solo. Muitos são de vida livre, como o Paramecium, um dos protozoários mais comuns em água doce; outros são sésseis[2], como o Vorticella, que se fixa a um substrato por uma espécie de pedúnculo. Existem os comensais[3], que se associam a outros organismos, sem prejudicá-los, como a Entamoeba coli, que vive no intestino humano; existem também os protozoários mutualistas[4], que se associam a outros organismos, beneficiando-os, como o Trichonympha, que digere a celulose da madeira no intestino do cupim; e há protozoários parasitas, que se associam a outros organismos, prejudicando-os, como a Entamoeba histolytica, que vive no intestino humano e pode provocar distúrbios intestinais. Plasmodium sp que provoca a malária e o Trypanosoma cruzi que provoca a doença de Chagas.

Embora a maioria dos protozoários viva de forma isolada, existem muitas formas coloniais, algumas das quais atingiram alto grau de interdependência celular de tal forma que se aproximam estruturalmente de um verdadeiro nível celular.

Os protozoários são formas microscópicas, unicelulares, que só podem ser estudadas em detalhes na sua estrutura celular com o auxílio de um microscópio.


[1] Heterótrofos. Organismos que dependem de uma fonte de alimento para sua sobrevivência. Não realizam fotossíntese ou quimiossíntese. São heterótrofos os protozoários, fungos e os animais.

[2] Sésseis. Organismo fixo a um certo substrato (rocha, por exemplo), como ocorre com as esponjas.

[3] Comensais. Organismo que se alimenta de restos ou nutrientes de outro organismo sem prejudicá-lo.

[4] Mutualistas. Relação ecológica em que duas espécies são beneficiadas, como ocorre com o protozoário triconinfa e os cupins.

2     CARACTERÍSTICAS GERAIS

A única característica comum a todos os protozoários é o nível unicelular de organização. Um protozoário pode ser comparado estruturalmente com uma célula de um organismo pluricelular. Fisiologicamente, no entanto, a célula do protozoário é um organismo completo que realiza todas as funções essenciais à vida, pois são, na maioria das vezes, auto-suficientes. Por isso, contém todas as organelas celulares típicas e realiza todos os processos celulares fundamentais, além de executar todas as funções encontradas em um organismo multicelular, o que a torna uma estrutura extremamente complexa. Um Paramecium, por exemplo, é muito mais complexo em termos morfofisiológicos do que qualquer célula do corpo humano.

Talvez o melhor modelo para se estudar o grupo dos protozoários seja a ameba. A espécie mais comum é Amoeba proteus, encontrada em água doce limpa, onde haja vegetação verde movimentando-se sobre substratos variados. Existem também espécies marinhas e algumas parasitas. Apesar de sua aparente simplicidade, a ameba pode locomover-se, capturar, digerir e assimilar alimento, eliminar resíduos não aproveitáveis, respirar, secretar e excretar substâncias, crescer e reproduzir-se. É um organismo incolor, gelatinoso, com até cerca de meio milímetro de comprimento, e que não exibe uma forma constante.

Como qualquer célula, as amebas, bem como todos os outros protozoários, são constituídas por envoltório, citoplasma e núcleo. O envoltório é a estrutura que reveste a célula, estando representado por uma membrana celular lipoproteica, embora algumas células apresentem carapaças minerais protetoras. O citoplasma pode se apresentar diferenciado em duas regiões: uma mais externa, de constituição gelatinosa, chamada ectoplasma; outra mais interna, de constituição mais fluida, denominada endoplasma. Dentro do endoplasma fica o núcleo, que não é muito visível no organismo vivo. Em alguns protozoários existem dois núcleos: um macronúcleo maior que controla funções vegetativas e um micronúcleo menor que comanda os processos reprodutivos.

Os protozoários exibem diferentes modos de nutrição. São organismos heterótrofos que podem ser de vida livre, como a ameba, obtendo alimento por meio da fagocitose[5], ou podem ser parasitas, como o tripanossoma e o plasmódio que retiram nutrientes do corpo do hospedeiro, podendo ainda ser sapróvoros, nutrindo-se de matéria orgânica morta em decomposição.

A digestão é intracelular e ocorre no interior de vacúolos digestivos[6] que contêm enzimas sintetizadas pela célula. Após a absorção de partículas digeridas, os resíduos são eliminados para o meio externo.

Quanto à respiração, as trocas gasosas se processam por simples difusão através da membrana celular. Existem protozoários aeróbios [7]anaeróbios[8], e as amebas fazem parte do primeiro grupo. A excreção também é feita por difusão por meio da membrana celular, sendo a amônia o principal resíduo metabólico. Já o controle osmótico, que determina a quantidade de água presente na célula, é feito através de uma organela denominada vacúolo pulsátil ou contrátil[9], que age como uma bomba de remoção do excesso de água do citoplasma. Os vacúolos pulsáteis são esféricos, contraem-se periodicamente para eliminar seu conteúdo e geralmente são encontrados em protozoários de água doce, pois os marinhos, vivendo em um meio altamente concentrado, tendem ao equilíbrio osmótico com seu ambiente.

A reprodução assexuada é a mais comum e também a única encontrada em certas formas. Destaca-se a cissiparidade ou fissão binária (divisão binária), quando uma célula se divide em outras duas, ocorrendo com freqüência nas amebas. Quanto à reprodução sexuada, é mais rara e pode envolver a diferenciação do próprio organismo em gameta. Esta, aliás, é a única forma de reprodução sexuada encontrada nas amebas. Entretanto, o processo mais conhecido não envolve gametas e chama-se conjugação[10], sendo restrito a outros grupos de protozoários.

Alguns protozoários, antes de se dividirem, trocam os seus micronúcleos. Isso possibilita o intercâmbio de informações genéticas entre eles, e é uma forma de reprodução sexuada. Trata-se da conjugação.

Em algumas formas, a reprodução é feita no interior de cistos produzidos pelo organismo. Estes podem ter também um papel de proteger a célula de adversidades ambientais. O encistamento, na verdade, está presente no ciclo de vida de grande número de protozoários, entre os quais certas amebas parasitas. Consiste da secreção de um envoltório espesso ao redor da célula, que pode protegê-la do dessecamento ou de baixas temperaturas, e dentro do qual o organismo sobrevive gastando um mínimo de energia.


[5] Fagocitose. Processo de obtenção de alimento por meio de pseudópodos.

[6] Vacúolos digestivos. Vesícula resultante da fusão de um vacúolo alimentar (alimento englobado) e do lisossomo (enzimas digestivas).

[7] Aeróbios. Organismos que utilizam o gás oxigênio em seu metabolismo respiratório.

[8] Anaeróbios. Organismos que vivem na ausência do gás oxigênio.

[9] Vacúolo pulsátil ou contrátil. Organela de osmorregulação nos protozoários de água doce.

[10] Conjugação. Processo de reprodução sexuada em que ocorre troca de material genético entre dois indivíduos através de uma ponte citoplasmática.

3     CLASSIFICAÇÃO

É comum classificar os protozoários em quatro grupos menores, sendo usado como critério principal de classificação o tipo de locomoção:

● os protozoários com movimento flagelar formam o grupo dos flagelados ou mastigóforos (do grego,mastix = chicote; phoros = portador);

● aqueles que se movimentam por meio de pseudópodos formam o grupo dos rizópodos ou sarcodinos (do grego, sarcodes = carnoso);

● os que têm movimento ciliar pertencem ao grupo dos ciliados (do latim, cilium = cílio);

● finalmente, os que não se movimentam durante boa parte da vida e são todos parasitas formam o grupo dos esporozoários (do grego, spora = semente).

3.1     Flagelados

São os protozoários que possuem como estruturas locomotoras filamentos alongados denominados flagelos. Muitos mantêm associações com outros organismos, inclusive de parasitismo, como Leishmania, Trypanosoma, Giardia e Trichomonas, que são parasitas humanos.

O flagelo, estrutura de locomoção, está normalmente voltado para a extremidade anterior da célula e consiste de um filamento longo formado por microtúbulos proteicos, envolvido por uma bainha que é contínua com a membrana celular. Origina-se sempre de um corpúsculo basal, de estrutura semelhante à de um centríolo. Em Trypanosoma, além do flagelo, existe uma membrana ondulante que auxilia a locomoção.Trichonympha possui milhares de flagelos e tem uma organização muito complexa. Habita o intestino de cupins e tem participação na digestão da madeira ingerida por estes insetos. A madeira ingerida pelo cupim é assimilada pelo protozoário e os produtos da digestão são também utilizados pelo inseto. A reprodução dos flagelados geralmente ocorre através de cissiparidade, com fissão longitudinal da célula.

3.2     Sarcodinos ou Rizópodos

São os protozoários cuja locomoção é feita por meio de projeções celulares denominadas pseudópodos, também utilizadas para a captura de alimento no processo de fagocitose. Assimétricos, ou seja, sem forma constante, ou mesmo esféricos, os sarcodinos formam um grupo muito diversificado, existindo formas marinhas, como os foraminíferos dotados de carapaça, e formas comuns de água doce, como os heliozoários, cuja célula lembra um pequeno sol. As amebas, que são os sarcodinos mais conhecidos, podem ser nuas ou providas de uma carapaça. As amebas nuas não têm forma fixa; sua célula se modifica constantemente conforme os pseudópodos são formados. Já as amebas com carapaça ou tecamebas, mais freqüentes em água doce, possuem um envoltório rígido protetor dentro do qual a célula fica contida. A carapaça pode ser secretada pelo citoplasma ou composta por materiais aglutinados na célula, sendo sempre dotada de abertura por onde os pseudópodos são emitidos. Aliás, algo que chama a atenção entre os sarcodinos é que este é um grupo de protozoários que apresenta abundante registro fóssil, devido à existência de carapaças rígidas em vários de seus representantes.

A formação dos pseudópodos está relacionada com alterações na estrutura citoplasmática, sobretudo a interconversão entre o endoplasma fluido e o ectoplasma gelatinoso. Como conseqüência de algum tipo de estímulo, o ectoplasma, em um ponto determinado da superfície celular, transforma-se em endoplasma e a pressão interna provoca um fluxo citoplasmático nesta região, dando origem ao pseudópodo. Depois que ele foi distendido, o endoplasma de sua extremidade é reconvertido em ectoplasma, prendendo a célula ao substrato. Do lado oposto, ao mesmo tempo, o ectoplasma é convertido em endoplasma para que o movimento possa ser completado. A ameba, desta maneira, consegue se deslocar num pequeno espaço, como se tivesse dado um passo; daí o significado do termo pseudópodos – “falsos pés”.

Existem algumas espécies de amebas parasitas. Entretanto, há várias espécies de vida livre, que se alimentam de pequenos organismos, como bactérias, algas e outros protozoários. Os pseudópodos também são usados na captação do alimento, no processo conhecido como fagocitose. Englobam o alimento e o incluem na célula em uma pequena vesícula que,  depois de receber as enzimas digestivas, pode ser denominada vacúolo digestivo. Muitas vezes, ao se observar uma ameba ao microscópio, percebe-se a presa capturada ainda em agitação no interior do vacúolo digestivo, enquanto sofre a ação enzimática que terminará por matá-la.

3.3     Ciliados

Este é o maior e mais homogêneo grupo de protozoários. Sua locomoção é feita através de cílios, estruturas de origem e composição semelhantes às de flagelos; porém, costumam ser menores e mais numerosos que eles. São raras as espécies parasitas e quase todos os representantes do grupo são de vida livre, existindo tanto em água doce como no mar.

Paramecium é talvez o ciliado mais conhecido pela facilidade com que é cultivado em laboratórios. Este organismo de água doce movimenta-se rapidamente utilizando os batimentos ciliares, descrevendo um movimento de rotação em torno de seu próprio eixo. Ao contrário da ameba, tem forma constante. É um organismo  heterótrofo,  sendo  o  alimento trazido para a célula graças aos batimentos de um conjunto de cílios posicionados em uma depressão da superfície celular denominada sulco oral. Este leva a uma abertura celular, o citóstoma, por onde o alimento penetra na célula. O citóstoma desemboca em um canal de passagem, a citofaringe, que se aprofunda na célula até o endoplasma. Dela se destacam vesículas contendo o alimento e que, recebendo enzimas digestivas secretadas pela célula, formam os vacúolos digestivos. Estes são movimentados pelo citoplasma, permitindo uma assimilação uniforme das partículas digeridas. Os resíduos são eliminados por uma pequena abertura da superfície celular denominada citopígeo.

Os vacúolos pulsáteis, de posição fixa, fazem o balanço hídrico da célula, sendo dois, um em cada extremidade do organismo. A reprodução mais comum é por cissiparidade, mas a conjugação eventualmente acontece em certas espécies. Neste caso, dois protozoários estabelecem entre si uma comunicação citoplasmática e trocam os respectivos materiais genéticos micronucleares. Fusão entre os materiais trocados e aqueles que permaneceram estacionários em cada célula, além de várias divisões celulares de cada um dos envolvidos, completam o processo em que, de cada par de conjugantes, resulta um total de oito células-filhas.

3.4     Esporozoários

Estes protozoários se caracterizam pela ausência de qualquer estrutura locomotora. Além disso, todos os membros do grupo são parasitas. Suas células têm forma arredondada ou alongada, com um núcleo e sem muitas organelas. Os alimentos são absorvidos diretamente do hospedeiro. A reprodução é feita por fissão múltipla ou esquizogonia, processo em que a célula torna-se multinucleada por mitoses sucessivas e então o citoplasma divide-se. Entretanto, pode ocorrer fase sexuada no ciclo de vida, com a diferenciação das células em gametas e posterior fusão, num processo denominado gamogonia. Os maiores destaques neste grupo são as gregarinas, que são parasitas de invertebrados, como insetos e anelídeos; Toxoplasma, que pode atingir tecidos diversos no homem; e Plasmodium, o causador da malária.

4     PROTOZOÁRIOS PARASITAS

As Protozoonoses [11] são as doenças causadas por protozoários, isto é, o agente etiológico [12] é um protozoário parasita.

As protozoonoses mais comuns são doença de Chagas, malária, amebíase, leishmaniose (úlcera de Bauru), toxoplasmose, giardíase e tricomoníase.

Estas doenças podem ser caracterizadas pelos seguintes aspectos:

● Agente etiológico – Agente causador da doença;

● Agente Vetor – Agente transmissor da doença, podendo ser um ser vivo (inseto) ou água e alimentos contaminados;

● Hospedeiros – Indivíduos que alojam o parasita;

● Sintomas – Reações do organismo à presença do parasita;

● Profilaxia – Medidas para prevenção da doença.


[11] Protozoonoses. São as doenças causadas por protozoários, entre elas são bem conhecidas a doença de Chagas e a malária.

[12] Agente Etiológico. É o agente causador da doença.

4.1     Doença de Chagas

Moléstia diretamente ligada às condições socioeconômicas humanas, constituindo-se em um dos mais sérios problemas médicos brasileiros. Estima-se que nosso país tenha hoje cerca de 8 milhões de chagásicos, principalmente na zona rural. São pessoas que provavelmente terão sobrevida reduzida, pois muitos doentes falecem em torno de 30 ou 40 anos de idade. A doença começou a ser pesquisada no início do século XX pelo brasileiro Carlos Chagas, que também descobriu e descreveu seu causador, seus transmissores e reservatórios naturais e ainda parte da sintomatologia.

4.1.1     Agente Etiológico (causador)

O protozoário causador da doença de Chagas é o flagelado Trypanosoma cruzi. Seu nome, dado por Carlos Chagas, é uma homenagem prestada ao médico Dr. Oswaldo Cruz.

4.1.2     Vetor (Transmissor)

O protozoário é transmitido ao homem por um inseto hematófago [13] conhecido popularmente como barbeiro (Triatoma infestans) ou chupança, que são nomes populares dados a uma série  de diferentes gêneros de insetos, dos quais o mais conhecido é o Triatoma. Este, tempos atrás, era habitante de matas no interior ainda não colonizado e sugava o sangue de animais silvestres como o tatu, o gambá e a cutia. Com o desbravamento do interior do País, matas foram destruídas e o homem começou a construir precárias habitações de sapé e pau-a-pique, em cujas paredes, cheias de frestas, os insetos passaram a fazer seus ninhos. Sua fonte de alimento também se alterou e ele passou a utilizar o sangue de animais domésticos, como o cão e o gato, além, é claro, do próprio homem, iniciando sua contaminação. Assim nasceu a doença de Chagas humana. De hábitos noturnos, os barbeiros hoje distribuem-se principalmente pelos Estados do nordeste e centro-oeste do País, além do interior de Minas Gerais. Não são comuns no Estado de São Paulo devido às bem sucedidas campanhas de erradicação.


[13] Hematófago. Organismo que se alimenta do sangue do hospedeiro.

4.1.3     Local de Ação

No organismo humano, o Trypanosoma cruzi pode ser encontrado no sangue circulante, em sua forma tradicional alongada e dotada de flagelo livre, e nos tecidos muscular (sobretudo cardíaco) e nervoso, em que se apresenta com forma esférica e sem flagelo livre. No inseto, formas do protozoário são encontradas sobretudo no intestino.

Trypanosoma nas células sanguíneas

4.1.4        Ciclo Biológico

Quando o barbeiro, no seu hábito hematófago, ingere o sangue de uma pessoa doente ou de um animal que seja reservatório natural do Trypanosoma cruzi, as formas parasitárias se desenvolvem em seu tubo digestivo até atingirem a porção posterior do intestino. Normalmente, um barbeiro torna-se transmissor do protozoário cerca de 20 dias após adquiri-lo via alimentação, podendo permanecer assim por toda a vida, que dura aproximadamente um ano. Ao sugar o sangue de uma pessoa sadia, o inseto deposita suas fezes na pele lesada e os protozoários alcançam a corrente sangüínea. Podem atingir diferentes tecidos corporais, nos quais se reproduzem, rompem as células e retornam à corrente sangüínea, alcançando novos tecidos. Dez a quinze dias após a contaminação, a doença atinge sua fase mais aguda e o número de parasitas no sangue torna-se tão alto que pode levar o indivíduo à morte. Se a quantidade de protozoários diminuir por ação do sistema imunológico[14], o doente entra na fase crônica e nela pode permanecer por muitos anos.


[14] Sistema Imunológico. Sistema de defesa do organismo contra a ação de parasitas ou substâncias (venenos) produzidos por eles.

4.1.5     Transmissão

A forma comum de transmissão da doença de Chagas é pela penetração do protozoário, presente nas fezes do barbeiro, quando existem lesões na pele da pessoa. Entretanto, outras formas de transmissão já foram constatadas. Em regiões onde a incidência da moléstia é alta, transfusões utilizando sangue de doadores contaminados são freqüentes e vários casos da doença foram registrados com essa origem. A transmissão congênita, ou seja, da mãe doente para o feto através da placenta também pode ocorrer, podendo provocar aborto ou morte da criança. O parasita também já foi encontrado no leite materno e pode contaminar os bebês em fase de amamentação, se houver lesões em sua boca ou no tubo digestivo.

4.1.6     Sintomas

A contaminação pelo protozoário se caracteriza por manifestações típicas nas regiões do corpo por onde houve a entrada do parasita. O chagoma é uma inflamação que surge no local da pele por onde o Trypanosoma cruzi penetrou, enquanto o sinal de Romanã resulta de infecção do globo ocular, com grande inchaço das pálpebras. Aliás, na fase aguda que se segue à contaminação, reações inflamatórias são comuns devido à multiplicação intracelular do parasita, o que provoca mobilização do sistema imunológico. Pode se seguir um período de latência de duração variável (10 a 20 anos), sem grandes manifestações, e o chagásico entra na fase crônica, quando começam a surgir os problemas cardíacos e intestinais. Insuficiência cardíaca, cardiomegalia (dilatação do coração), problemas na formação e condução dos estímulos cardíacos, megaesofagia (dilatação da parede do esôfago) e megacolia (dilatação da parede intestinal) são os aspectos mais freqüentes, que podem levar à morte.

Coração Chagásico

Coração Normal

4.1.7     Profilaxia[15]

A transmissão da doença de Chagas está intimamente ligada às péssimas condições habitacionais em que vive boa parcela de nossa população, sobretudo no meio rural. A melhoria das habitações, com a construção de casas de alvenaria ou a reforma das casas já existentes, com o preenchimento das frestas com reboque, seriam medidas fundamentais. O combate ao barbeiro, com campanhas de erradicação como as realizadas no Estado de São Paulo, que reduziram grandemente o número de casos da doença por esta via de transmissão, seria outra medida importante. A utilização de telas nas janelas e redes de filó sobre as camas são paliativos que podem ser adotados enquanto não se consegue a erradicação definitiva do inseto. Estuda-se o combate ao barbeiro através de uma técnica de controle biológico que consiste na utilização de um fungo parasita ou de um pequeno inseto cujas larvas destroem os ovos do barbeiro. O controle das doações de sangue em hospitais e bancos de sangue é decisivo para prevenir a contaminação por uma via que ganhou importância nos últimos anos. A doença de Chagas não tem cura e seu tratamento ainda é ineficaz, reforçando a necessidade de medidas profiláticas adequadas.

Combate ao barbeiro

Redes de filó

Telas em janelas

Cuidado nas transfusões sangüínea


[15]Profilaxia. Medida de prevenção de uma certa doença.

4.2     Malária

A malária, também conhecida como maleita, sezão, impaludismo, febre palustre ou febre intermitente, é parasitose que grande dano causou a milhões de pessoas das áreas tropicais do planeta. Já conhecida desde a Grécia antiga, a malária recebeu este nome porque acreditava-se que sua transmissão seria feita por meio de ar contaminado (mal aria ou mal ar). A participação de mosquitos transmissores só foi esclarecida no final do século passado. É doença endêmica[16] em vários países, inclusive no Brasil, onde se constitui em sério problema em algumas regiões e um desafio para os nossos governantes.


[16] Endêmica. Endêmico – Doença típica de uma certa região com número de casos previsíveis anualmente.

4.2.1     Agente Etiológico

A malária é causada por esporozoários do gênero Plasmodium. Existem cerca de 50 espécies que utilizam o mosquito e um vertebrado, geralmente ave, como hospedeiros. Destas, apenas quatro espécies têm o homem como hospedeiro vertebrado e causam a malária humana. Três ocorrem no Brasil: P. vivaxP. malariae e P. falciparum. A quarta espécie é P. ovale, que só é encontrada na África.

4.2.2        Vetor

A transmissão da malária é feita por meio da atividade hematófaga do mosquito do gênero Anopheles, conhecido popularmente como mosquito-prego, pelo fato de se posicionar perpendicularmente à superfície da qual sugará sangue. No Brasil, a espécie mais importante é Anopheles darlingi e, curiosamente, apenas as fêmeas são capazes de fazer a transmissão, uma vez que os machos têm hábito alimentar frugívoro[17]. A atividade hematófaga ocorre sobretudo ao amanhecer e ao anoitecer e as larvas proliferam em ambientes de água parada, como lagos e represas. Sabe-se hoje que os mosquitos que apresentam formas do Plasmodium nas glândulas salivares conseguem sugar um menor volume sangüíneo que os mosquitos normais; por isso, repetem os ataques aos hospedeiros várias vezes, aumentando a chance de transmissão.


[17] Frugívoro. Organismo que alimenta-se de frutas ou seiva vegetal.

4.2.3     Local de Ação

Durante seu ciclo evolutivo, o Plasmodium pode se apresentar sob várias formas diferentes. No organismo humano é encontrado no sangue circulante, dentro de hemácias (glóbulos vermelhos) e na região hepática. Das várias formas exibidas pelo parasita, duas merecem destaque: o esporozoíto é a forma existente nas glândulas salivares do mosquito e que é inoculada no homem, tendo um aspecto alongado, com um núcleo central; já o merozoíto é a forma encontrada em células hepáticas e no interior das hemácias, sendo ovalado.

4.2.4     Ciclo Biológico

Pode-se dizer que o parasita é heteroxeno, pois seu ciclo necessita de dois hospedeiros: o homem e o mosquito. O homem é o hospedeiro intermediário[18], no qual o Plasmodium realiza apenas reprodução assexuada, enquanto o mosquito é o hospedeiro definitivo[19], pois a fase sexuada da vida do protozoário ocorre no seu corpo.

Quando uma pessoa entra em área onde a malária é comum, fatalmente acaba sendo vítima da ação hematófaga das fêmeas do mosquito Anopheles. De forma geral, o ciclo começa quando os esporozoítos entram na corrente sangüínea humana com a saliva do mosquito. Vão para o fígado e invadem as células hepáticas, nas quais desenvolvem estágios amebóides. Cada parasita sofre fissão múltipla ou esquizogonia, produzindo milhares de merozoítos, que são liberados para o sangue e invadem as hemácias. Reproduzem-se novamente por fissão múltipla e causam ruptura ou lise celular[20], sendo liberados para invadir novas hemácias, nas quais repetirão o procedimento. Alguns merozoítos, entretanto, podem, dentro de certas hemácias, sofrer um processo de diferenciação celular e originar células denominadas gametócitos, que são precursoras de gametas. Os gametócitos são liberados para o sangue circulante e podem ser ingeridos por um mosquito quando este sugar o sangue do doente.

Na sua atividade hematófaga, o mosquito pode ingerir também merozoítos e outras formas sangüíneas do parasita, mas somente os gametócitos se desenvolverão no inseto, já que as outras formas degeneram e morrem. No tubo digestivo do mosquito, os gametócitos, já diferenciados em gametas,  fundem-se e formam zigotos, que se fixam na parede gástrica, desenvolvem-se em cistos [21] e liberam milhares de esporozoítos, os quais se alojarão nas glândulas salivares. O mosquito pode, pela saliva, introduzir os esporozoítos em outro indivíduo ao picá-lo.

Ciclo vital de Plasmodium vivax, mostrando as várias formas do protozoário no organismo do mosquito e no homem.


[18] Hospedeiros intermediários. Hospedeiro intermediário – É o organismo no qual o parasita aloja-se na forma larval ou no qual ocorrem os processos de reprodução assexuada do parasita.

[19] Hospedeiro definitivo. É o organismo no qual o parasita aloja-se na forma adulta ou no qual ocorrem os processos de reprodução sexuada do parasita.

[20] Lise celular. É a ruptura da membrana celular.

[21] Cistos. São formas de resistência do parasita, contra condições desfavoráveis do ambiente.

4.2.5     Tipos de Malária

A característica sintomatológica mais marcante da malária é a ocorrência de calafrios e acessos febris a intervalos regulares, cuja duração depende da espécie de Plasmodium que está provocando a doença. Percebe-se que tais sintomas coincidem com a ruptura das hemácias do doente pelos merozoítos e que o intervalo entre eles representa justamente o tempo necessário para que os merozoítos invadam novas hemácias e provoquem lise também nelas. A espécie Plasmodium vivax  é a causadora da malária terçã benigna, sendo que os sintomas se repetem a cada 48 horasPlasmodium falciparum é causador da maláriaterçã maligna, também com ciclo de 48 horas; Plasmodium malariae provoca malária quartã benigna, com intervalo de 72 horas entre os sintomas. A distinção entre malária benigna e maligna está no fato de que a segunda freqüentemente conduz à morte, o que raramente ocorre com a primeira, embora cause séria debilidade orgânica.

A chamada malária maligna destrói maior número de hemácias a cada reprodução dos merozoítos, além de provocar sua aglutinação dentro dos vasos sangüíneos, podendo comprometer o fluxo de sangue em órgãos importantes e, conseqüentemente, levar à morte.

A variação da temperatura corporal num indivíduo afetado com malária (febre terçã)

4.2.6     Sintomas

Os sintomas típicos da malária, como já vimos, são os calafrios e acessos febris intermitentes, com intervalos variáveis, conforme a espécie de parasita considerada. Além disso, é comum a ocorrência de anemia, pois o número de hemácias destruídas é muito grande, levando à perda da hemoglobina (opigmento responsável pelo transporte do oxigênio pelo organismo e que está dentro das hemácias), causando sérios problemas para a manutenção da fisiologia normal. Problemas hepáticos são comuns, pois parte das células do fígado também é destruída pelo parasita, levando ao aumento de volume do órgão. Deve-se ressaltar que há resposta do sistema imunológico à ação do parasita, existindo casos em que a pessoa adquire imunidade para a doença. Ocorrem também casos de recaída, em que a pessoa, depois de parecer curada, volta a manifestar os sintomas.

4.2.7     Profilaxia

Hoje, no Brasil, a malária está mais concentrada na região Norte, sobretudo na Amazônia, e em parte da região Centro-Oeste, além de áreas esparsas do Nordeste e Sudeste. As medidas profiláticas consistem basicamente em: tratar o homem doente (eliminando a fonte de infecção e reservatório), proteger o homem sadio (desenvolvimento de vacina, telas nas janelas) e combater o mosquito (fases larval e adulta).

Existem hoje vários medicamentos, alguns dos quais à base de quinino, que não conseguem destruir as formas parasitárias alojadas no fígado, o que proporciona recaídas. Medicamentos associados podem ser utilizados, conseguindo-se excelentes resultados, sobretudo quando o tratamento é feito precocemente. Pessoas  que  vivem  em  áreas onde é comum a doença costumam tomar pequenas doses de certas drogas como daraprin ou cloroquina como prevenção. Desenvolvem-se pesquisas no sentido de se obter uma vacina contra a moléstia.

A drenagem de água parada, assim como a colocação de petróleo ou venenos, pode matar as larvas do mosquito-prego, reduzindo as possibilidades de contaminação. O uso de inseticidas nas casas pode fazer o mesmo com os insetos adultos. Técnicas de controle biológico são também empregadas , entre elas a colocação de peixes como o guaru-guaru (Gambusia affinis) nas águas para comer larvas e pupas de mosquitos.

4.3     Giardíase

Giardia lamblia

É causada pelo flagelado Giardia lamblia, possivelmente o primeiro protozoário intestinal a ser conhecido. Em sua forma adulta, apresenta um formato de pêra e quatro pares de flagelos. Pode também ser encontrado na forma de cisto, sendo então ovalado. A via normal de infecção é através da ingestão de cistos, geralmente na água e nos alimentos contaminados. O desencistamento inicia-se no estômago e é completado no intestino, onde o parasita adulto se fixa. É comum a adesão das formas adultas à superfície exterior das células duodenais. No intestino, ocorrem a reprodução e os novos  encistamentos  quando as formas adultas se desprendem da mucosa intestinal, sendo então liberadas para o meio exterior, onde poderão contaminar novas pessoas.

Geralmente a giardíase é assintomática e muitas vezes crônica. Há casos, entretanto, em que certos sintomas podem ser percebidos, como: dores abdominais, irritabilidade, falta de apetite, náusea e vômitos, além de diarréia e má absorção de nutrientes pela mucosa intestinal, que poderiam ser provocados pelo recobrimento desta pelos protozoários ou pela liberação de alguma toxina por parte deles. É uma moléstia (mal-estar) encontrada no mundo todo e mais freqüente em crianças devido à falta de hábitos higiênicos, o que torna muito comum a auto-infecção (crianças brincando no chão contaminado com fezes de outras crianças e levando a mão à boca se infectam com facilidade). Nos adultos, a infecção parece conferir certa resistência a novas infecções. Deve-se ressaltar a grande resistência das formas císticas às condições ambientais: o cisto suporta até dois meses no meio externo, é resistente ao processo de cloração da água (embora não resista à fervura) e pode sobreviver muito tempo embaixo das unhas.

Como medidas profiláticas, destacam-se: tratamento dos doentes, o que tem sido feito com grande eficiência com drogas apropriadas; higiene pessoal; tratamento da água e cuidados com os alimentos, sobretudo com as verduras que serão ingeridas cruas.

4.4     Leishmaniose

Este termo reúne uma série de protozoonoses que têm como agentes etiológicos flagelados do gênero Leishmania. São transmitidos ao homem pela picada de mosquitos hematófagos dos gêneros Phlebotomus e Lutzomyia, conhecidos popularmente como mosquitos-palha. Pode se manifestar de diferentes maneiras, dependendo da espécie infectante, mas, geralmente, provoca degeneração tecidual dos órgãos atingidos. São descritos três tipos importantes de leishmaniose:

4.4.1     Leishmaniose Tegumentar Americana

Acredita-se que seja uma doença típica das Américas, sendo encontrada desde o sul dos Estados Unidos até a Argentina e já era bem conhecida em São Paulo no início do século XX, quando recebeu o nome de Úlcera de Bauru, por ser esta a área com maior incidência da moléstia. Geralmente está associada a áreas florestais recentes ou antigas. O agente etiológico mais comum é Leishmania braziliensis e o inseto vetor pertence ao gênero Lutzomyia.

O parasita habita os monócitos [22] e macrófagos [23] que formam o sistema monocítico fagocitário cutâneo em regiões como pernas, braços e rosto. A característica marcante da doença, no entanto, é a ocorrência de sérias lesões na região facial (boca e nariz, podendo estender-se até a faringe). Inicialmente, ocorre edema na cartilagem nasal, provocando corrimento (coriza) e, algum tempo depois, o aparecimento de úlcera, promovendo grande inchaço (é o chamado “nariz-de-anta”). Pode, depois, haver o comprometimento de todo o nariz, lábio superior, palato e faringe, deixando o local seriamente mutilado e dificultando a respiração e a fala.

Há vários medicamentos que podem ser utilizados no tratamento desta moléstia. Entretanto, seu uso só é eficaz quando a doença é identificada precocemente, além do fato de serem necessários tratamentos repetidos e de existirem sérios efeitos colaterais. Há vacina e muitos estudos são feitos ainda hoje na tentativa de aperfeiçoá-la. O combate ao mosquito vetor é muito importante como medida profilática. É um inseto de hábito noturno e que voa muito pouco. Assim, em áreas de derrubada de matas, é conveniente a instalação de pessoas a uma distância mínima de 500 metros da mata.


[22] Monócitos. Monócito- É a célula do sistema imunológico relacionada com o fenômeno de fagocitose de antígenos (corpos estranhos ao organismo), pois dão origem aos macrofágos.

[23] Macrófagos. Macrófago- É um tipo de glóbulo branco que realiza fagocitose, atuando no sistema imunológico do organismo.

4.4.2     Leishmaniose Cutânea

Também conhecida como botão do Oriente, é uma doença benigna restrita à Europa e à Ásia. Seu agente etiológico é Leishmania tropica e o vetor é o mosquito Phlebotomus papatasii. Caracteriza-se por lesões exclusivamente cutâneas e no local da picada do inseto. O paciente normalmente cura-se espontaneamente e não adquire a moléstia outra vez.

4.5     Amebíase

Também conhecida como disenteria amebiana, é moléstia de ocorrência comum no homem, causada pelo sarcodino Entamoeba histolytica. As formas adultas habitam principalmente a luz intestinal, mas, devido ao fato de provocarem ulcerações e rupturas da mucosa do intestino, podem atingir outros locais e ser encontradas em lesões hepáticas, pulmonares, cerebrais ou cutâneas. A dispersão a partir do hospedeiro é feita na forma cística. A pessoa se infecta ao ingerir os cistos contidos na água e em alimentos contaminados. Passando pelo estômago e intestino delgado, o cisto tem o envoltório digerido e abre-se, liberando uma pequena ameba, que se reproduz assexuadamente, produzindo oito formas adultas, que migram para o intestino grosso. Algumas formas permanecem na luz intestinal e, são liberadas com as fezes e podem infectar um novo hospedeiro. Outras formas invadem a mucosa e provocam lesões.

Isso freqüentemente acarreta o sintoma característico da doença, que é a eliminação de fezes acompanhadas de muito sangue (diarréia mucosanguinolenta).

Em muitos casos, ocorre o rompimento da parede intestinal e as amebas, por meio da corrente sangüínea, acabam por atingir o fígado, no qual provocam sérios danos (uma espécie de hepatite), além de outros órgãos. Alguns pacientes são “portadores assintomáticos”, ou seja, são hospedeiros das amebas, possuem algumas úlceras intestinais, não apresentam sintomas, mas eliminam grande quantidade de cistos, sendo transmissores freqüentes.

Como medidas profiláticas devem-se destacar: o tratamento dos doentes, relativamente simples quando ocorrem apenas lesões intestinais, mas muito difícil em caso de lesões hepáticas, pulmonares ou cutâneas; educação sanitária, com extensão da rede sanitária e tratamento de esgoto; higiene alimentar, tomando-se todos os cuidados com a água e as verduras. A amebíase está intimamente vinculada a regiões onde o saneamento básico é deficiente.

Ciclo de vida da ameba e Profilaxia

4.6     Tricomoníase

Também chamada tricomonose, é causada pelo flagelado Trichomonas vaginalis, que vive no sistema urogenital masculino e feminino. A transmissão usual é através do contato sexual. Geralmente causa inflamações sérias na mulher e atinge sobretudo a região vaginal. No homem permanece assintomático e vive principalmente na uretra peniana. Há tratamento através de diversos medicamentos e a profilaxia consta basicamente de higiene pessoal e cuidados na prática sexual, devendo as relações ser evitadas em caso de doença de um dos parceiros.

4.7     Toxoplasmose

É uma grave doença causada pelo esporozoário Toxoplasma gondii. O gato é o hospedeiro definitivo, enquanto o homem e outros animais são hospedeiros intermediários. A transmissão usualmente acontece por via oral quando se ingerem as formas infectantes. Ocorre também transmissão congênita (através da placenta) durante a gravidez, desde que a mãe esteja na fase aguda da doença. A toxoplasmose congênita ou pré-natal pode provocar aborto, parto prematuro ou sérias anomalias na criança, com possibilidade de ocorrência de natimortos[24]. A toxoplasmose pós-natal raramente provoca a morte, mas pode levar a manifestações graves, como comprometimento ganglionar, lesões oculares ou cutâneas e distúrbios nervosos. Embora ainda não exista uma droga eficaz contra a toxoplasmose, os doentes podem ser tratados com associações de medicamentos. Higiene alimentar e cuidados com os animais de criação, sobretudo gatos, evitando contato com as fezes, pois as formas sexuadas vivem no seu epitélio intestinal, são as medidas profiláticas mais importantes.


[24] Natimortos. É o indivíduo que nasce morto.

Fonte: Sistema COC de Educação e Profº de biologia Fábio Levi de Oliveira

Poríferos

1     ESPONJAS

1.1     Apresentação

As esponjas, também conhecidas como poríferos, formam o filo Porifera (do latim porus = poro; ferre = portador) e são animais de organização simples. Todos os membros do grupo vivem fixos a um substrato e são praticamente imóveis, o que fez com que, durante muito tempo, fossem considerados plantas. Sua natureza animal só foi reconhecida em 1765, quando foram observadas correntes internas de água no seu organismo.

Nas 10 mil espécies diferentes de esponjas existem representantes com formatos diversos e tamanho que varia entre 1 mm e 2 m de diâmetro. Muitas são coloridas de cinzento ou pardo, outras são vermelhas, alaranjadas ou azuis. Podem viver isoladas, mas existem inúmeras espécies que formam colônias com grande número de indivíduos. São quase todas marinhas, existindo somente duas famílias de água doce, vivendo em profundidades diversas.

Algumas espécies de esponjas ficaram muito conhecidas pela sua aplicabilidade econômica, pois seus delicados esqueletos, formados por uma substância proteica elástica, permitem sua utilização como esponjas-de-banho. É  por  isso  que  o  termo  esponja  se  aplica a todo o grupo, embora nem todas possam ser utilizadas para o banho, devido ao esqueleto fortalecido e pontiagudo que muitos representantes possuem.

1.2     Características Gerais e Organização do Corpo

O corpo da esponja frequentemente se assemelha a um pequeno vaso ou barril fixo ao substrato. O termo “porífero” refere-se ao fato de todos os membros deste grupo apresentarem o corpo dotado de poros, minúsculos orifícios por onde ocorre a passagem de água. Entretanto, o que mais chama a atenção nestes animais é sua organização em torno de um sistema de canais para a circulação de água, o que está diretamente  relacionado  com o fato de serem indivíduos sésseis[1]. A incapacidade de deslocamento foi compensada com a construção do organismo, segundo um arranjo ou simetria radial, onde as estruturas corporais estão organizadas em torno do eixo central do animal. É como se o animal, incapacitado de explorar o ambiente por ser séssil, trouxesse o ambiente até ele, o que se constata pelo grande volume de água que passa diariamente pelo corpo da esponja, ajudando na sua sobrevivência. Muitas formas, entretanto, são assimétricas[2], não revelando qualquer padrão de organização.

A diversidade das esponjas

A diversidade das esponjas

A diversidade das esponjas

A diversidade das esponjas

A superfície corporal das esponjas é perfurada por muitas aberturas minúsculas, os poros, que, nos indivíduos de estrutura mais simplificada, abrem-se diretamente para uma cavidade interna denominada átrio[3] ou espongiocelo. Naqueles animais de estrutura mais complexa, os poros abrem-se para um intrincado sistema de canais e/ou câmaras que ocupam a parede do corpo, neste caso mais espessa, e que desembocam no átrio central. O átrio sempre se abre para o exterior, através de um grande orifício situado na parte superior do corpo e que é chamado ósculo[4]. Uma corrente de água passa continuamente pelos poros e pelo sistema de canais até atingir o átrio e ser eliminada através do ósculo.

A parede corporal dos poríferos tem espessura que varia de acordo com o grupo considerado. Nas esponjas mais simples, é relativamente fina e tem sua superfície externa formada por células achatadas denominadas pinacócitos[5]. Os poros são formados a partir de um tipo especial de célula, com a forma de um tubo perfurado, que se estende desde o exterior até o átrio e que se chama porócito. Sua perfuração ou cavidade interna forma o poro ou óstio, por onde a água penetra no corpo do animal. Abaixo dessa superfície externa, existe uma matriz proteica de consistência gelatinosa denominada mesênquima, onde se notam muitas células amebóides[6] e elementos de sustentação. Algumas das células amebóides, também chamadas amebócitos, são participantes dos processos digestivos do animal por terem capacidade fagocitária, enquanto outras são totipotentes, ou seja, são capazes de formar outros tipos de células necessárias ao organismo. Quanto aos elementos de sustentação, formam uma espécie de esqueleto que, na maioria das esponjas, é composto por estruturas enrijecidas formadas por amebócitos especiais e que são denominadas espículas. Apresentando formas variáveis, as espículas são importantes elementos de identificação e classificação dos poríferos, podendo ser constituídas de materiais como calcário (carbonato de cálcio) ou sílica (dióxido de silício). Algumas formas, como as esponjas-de-banho, não possuem espículas como elementos esqueléticos, mas sim uma rede de delicadas fibras proteicas, as fibras de espongina, que formam uma rede espalhada por todo o mesênquima. Há esponjas que apresentam uma mescla de espículas e fibras de espongina como material de sustentação.

Revestindo o átrio, no interior do corpo da esponja, há uma camada de células flageladas denominadas coanócitos[7], responsáveis pelo movimento da água e também pela obtenção de alimento.


[1] Sésseis. Organismo fixo a um certo substrato (rocha, por exemplo), como ocorre com as esponjas.

[2] Assimétricas. Assimétricos- animais sem uma simetria definida, como ocorre com as amebas.

[3] Átrio. Cavidade interna do corpo das esponjas. Também chamado de espongiocelo.

[4] Ósculo. Abertura por onde sai água do corpo da esponja.

[5] Pinacócitos. Pinacócito-células da superfície corporal das esponjas.

[6] Células Amebóides.(Amebócitos). – Células com movimento amebóide (formação de pseudópodos) que distribuem nutrientes pelo corpo da esponja.

[7] Coanócitos. Coanócito-célula exclusiva das esponjas, relacionada com a digestão intracelular.

1.3     Tipos Estruturais

As esponjas mais simples, como aquela descrita no item anterior, apresentam a parede do corpo relativamente fina e átrio volumoso. Recebem a denominação de asconóides e se caracterizam por um fluxo de água lento no interior do corpo, já que o átrio conterá água demais para que possa ser levada rapidamente para fora através do ósculo.

As esponjas mais complexas resolveram, durante a evolução, o problema do fluxo de água e da área de superfície, através de dobramento da parede do corpo e redução do átrio. As dobras aumentam a superfície da camada de coanócitos e a redução do átrio diminui o volume de água, que assim circula de maneira mais rápida e eficiente. As esponjas em que as dobras da parede do corpo ainda não são tão significativas denominam-se siconóides. Nelas os coanócitos ficam situados não na parede do átrio, mas em canais localizados no interior da parede corporal chamados canais radiais.

O mais alto grau de dobramento da parede do corpo é encontrado nas esponjas leuconóides, onde os canais radiais se expandiram de modo a formar pequenas câmaras flageladas esféricas, sendo que o átrio praticamente desaparece. De forma geral, as esponjas asconóides são de pequeno porte, devido ao limitado número de coanócitos que forram seu átrio, enquanto as esponjas siconóides e leuconóides possuem tamanhos mais avantajados, graças ao maior número de coanócitos e à circulação mais eficiente de água que as dobras da parede do corpo possibilitam.

1.4     Funcionamento

O funcionamento orgânico das esponjas depende fundamentalmente da água que passa pelo seu corpo, trazendo partículas alimentares e oxigênio e retirando excretas e gás carbônico. As correntes de água são criadas pelos batimentos flagelares dos coanócitos, que também são os responsáveis pela filtração das partículas alimentares,  através  da  fina  membrana  que forma seu colarinho. As partículas são fagocitadas pelo corpo celular do coanócito e a digestão, exclusivamente intracelular, é realizada pelos próprios coanócitos. É por esta razão que as esponjas são conhecidas como animais filtradores. Calcula-se que, em uma esponja de apenas 10 cm de altura, passem diariamente 95 litros de água através do corpo.

As trocas gasosas e a eliminação dos excretas ou resíduos metabólicos são feitas por simples difusão entre água e células. A água também desempenha o papel de líquido circulatório, uma vez que estes animais não apresentam sangue. Os amebócitos, livres no mesênquima, estão relacionados com a formação das espículas e auxiliam na distribuição de substâncias pelo organismo. Não há sistema nervoso, sendo que as células respondem aos estímulos individualmente, existindo apenas reações localizadas.

Espículas que sustentam o corpo dos poríferos.

Espícula em detalhe – Microscopia eletrônica

1.5     Reprodução dos Poríferos

A reprodução dos poríferos pode ser assexuada ou sexuada.

Assexuada – Ocorre, por exemplo, por brotamento. Neste caso, formam-se brotos, que podem se separar do corpo do animal e dar origem a novas esponjas. Observe o esquema abaixo:

As esponjas apresentam ainda grande capacidade de regeneração. Se uma esponja for partida em pedaços, cada pedaço poderá dar origem a uma nova esponja.

Sexuada. Neste caso, quando os espermatozóides (gametas masculinos) estão maduros, eles saem pelo ósculo, junto com a corrente de água, e penetram em outra esponja, onde um deles fecunda um óvulo (gameta feminino). Após a fecundação, que é interna, forma-se uma célula ovo ou zigoto, que se desenvolve e forma uma larva. A larva sai do corpo da esponja, nada com a ajuda de cílios e se fixa, por exemplo, numa rocha, onde se desenvolve até originar uma nova esponja.

Fonte: Sistema COC de Educação e Comunicação e site Só Biologia

Celenterados/Cnidários

1     CELENTERADOS

1.1     apresentação

Os celenterados, também chamados cnidários, constituem o filo Cnidaria (do grego knide = urtiga), com cerca de 10 mil espécies e grau de organização superior ao dos poríferos, pelo fato de apresentarem tecidos verdadeiros, formados por células diferenciadas, e por terem, como cavidade interna principal, uma cavidade digestiva. Por isso,  são considerados os primeiros metazoários (espécie de animal pluricelular). Constituem um grupo de organismos aquáticos, geralmente marinhos, em geral muito bonitos, com cores e formas bastante variáveis. Muitos formam colônias contendo grande quantidade de indivíduos. Compreendem formas móveislivre-natantes, e também imóveis, o que fez com que alguns autores, no passado, considerassem os celenterados como “animais-plantas” ou zoófitos. Sua natureza animal só foi realmente estabelecida no século XVIII. Existem formas microscópicas, como os pólipos formadores de corais, e outras gigantescas, como a medusa Cyanea artica, cujos tentáculos podem atingir até 10 m de comprimento. O grupo merece destaque pela grande diversidade de formas que apresenta. Entre elas estão as formas coloniais Obelia sp, por exemplo, uma colônia formada por inúmeros organismos fixos, que, durante seu desenvolvimento, passam por um estágio livre-natante[1], enquanto Physalia pelagica, ou caravela, é uma colônia flutuante com vários tipos de indivíduos adaptados a diferentes funções, como flutuação, nutrição, defesa e reprodução.

Nas praias, os banhistas devem ser cautelosos, pelo fato de o revestimento corporal dos celenterados apresentam células que, quando tocadas, provocam fortes queimaduras. Um dos celenterados mais conhecidos é Aurelia aurita, mais conhecida como água-viva, comum em águas costeiras e cujo nome é devido ao fato de aproximadamente 95% de seu peso corporal ser formado por águaChironex fleckeri, ou vespa-marinha, encontrada em fundos arenosos nos mares da região australiana, pode ser considerada o animal venenoso mais perigoso do mar, pois o contato com suas células urticantes pode matar um homem em apenas três minutos. Muito conhecidas são também as anêmonas, que podem se prender a rochas e ao fundo arenoso e alimentam-se de pequenos animais. Os corais são cnidários coloniais, alguns formando os famosos recifes. Neste caso, os organismos crescem uns sobre os outros e os mais antigos, que são a base do agrupamento, têm seu suporte calcário preservado após a morte, formando grandes barreiras em certas regiões marinhas. A Grande Barreira de Recifes é o mais extenso dos recifes de coral do mundo, estendendo-se por mais de 1600 km ao longo da costa nordeste da Austrália.


[1] Livre-natante. Organismo com capacidade de locomoção no ambiente aquático.

1.2     Características Gerais

Embora a diversidade de formas seja uma marca característica do grupo dos cnidários, podemos tomar como modelo de celenterado para a descrição estrutural do grupo a conhecida hidra, animal encontrado em ambientes de água doce e limpa, como lagoas, lagos, tanques ou mesmo em riachos de correnteza mais lenta, onde se fixa a talos ou folhas de vegetais submersos. O corpo da hidra é cilíndrico e pode chegar a mais de 1 cm de comprimento, tendo aspecto de coluna e apresentando duas extremidades: a superior ou oral, na qual está a boca, e a inferior ou aboral, na qual um disco basal fixa o animal ao substrato.

Hidra

O termo cnidário está associado ao nome de uma planta, a urtiga, conhecida por liberar, através de pêlos secretores das folhas, uma substância que irrita a pele de organismos que tenham contato com ela. Esta característica também está presente na hidra e nos diversos tipos de celenterados, cujo revestimento externo possui células capazes de liberar uma substância irritante ou urticante, que pode provocar terríveis queimaduras em outros animais e até mesmo no homem. Estas células, conhecidas como cnidoblastos[2], são típicas dos componentes deste grupo. São conhecidos vários casos de banhistas que sofreram queimaduras muito sérias devido à ação de celenterados que se aproximam das praias, como as caravelas, as águas-vivas e as vespas-marinhas, já citadas. Tais células, para o cnidário, servem para a defesa e captura de alimento e contrastam com a aparente fragilidade que os membros do grupo exibem. Os cnidoblastos também são chamados cnidócitos e contêm o aparelho urticante característico dos cnidários, o nematocisto. Cada nematocisto é uma cápsula esférica existente dentro do cnidoblasto, preenchida por um líquido e dotada de um filamento enrolado que pode ser evertido para auxiliar na captura de uma presa ou na defesa. Na superfície livre do cnidoblasto, em contato com a água, existe um pequeno prolongamento da parede da cápsula, o cnidocílio, que funciona como um gatilho. Ao lado desse gatilho há uma tampa que trabalha como válvula. Quando um corpo estranho toca no cnidocílio, a válvula se abre, entra água na cápsula e o filamento é rapidamente desenrolado, embebido em um líquido de ação tóxica violenta que paralisa a presa ou agressor de pequeno porte. Os cnidoblastos formam verdadeiras baterias nos tentáculos do animal. São descartados após o uso e repostos graças às diferenciações das células intersticiais.

Cnidoblastos de hidra: células urticantes contendo nematocistos


[2] Cnidoblastos. Células típicas dos celenterados, relacionadas com a defesa do organismo ou captura de presas.

1.2.1     CAVIDADE DIGESTIVA

O termo celenterado (do grego coilos = oco; enteron= intestino) refere-se ao fato de que estes animais possuem uma cavidade no interior do corpo, denominada cavidade gastrovascular ou digestiva, na qual ocorre digestão extracelular, permitindo a utilização de alimento com uma variação de tamanho muito maior do que aquela que é possível para protozoários e esponjas. Tal cavidade, que se comunica com as cavidades mais finas dos tentáculos, apresenta uma única abertura para o exterior, que é a boca.

1.2.2     TENTÁCULOS

Outra característica comum aos celenterados é a existência dos tentáculos, apêndices alongados normalmente encontrados ao redor da boca e que são utilizados para a manipulação do alimento. Além disso, como é ao longo da epiderme dos tentáculos que se concentra a grande maioria dos cnidoblastos, são úteis na defesa do animal e na captura de presas.

1.2.3     SIMETRIA RADIAL

Normalmente é exibida nos celenterados adultos. Nesse tipo de simetria, as partes do corpo estão dispostas em torno de um eixo central, como os raios da roda de uma bicicleta se posicionam em torno de seu eixo. Caracteriza tanto as formas móveis como as sésseis.

A parede corporal da hidra compreende apenas duas camadas de células: a epiderme, mais externa, com função protetora e sensitiva; e a gastroderme, mais interna e mais espessa, revestindo a cavidade gastrovascular, atuando principalmente na digestão. Entre as duas há uma fina mesogléia acelular, secretada pelas duas camadas e que fornece um suporte para o corpo e os tentáculos. Nas medusas, como a água-viva, esta mesogléia é bem mais espessa e pode conter fibras musculares úteis na locomoção, uma vez que são formas livre-natantes. Alguns tipos celulares característicos são encontrados na epiderme e na gastroderme da hidra, embora possam também aparecer em outros celenterados.

Estrutura da parede do corpo da hidra. A camada externa de células (epiderme) tem função protetora, enquanto a camada interna (gastroderme) reveste a cavidade digestiva.

1.3     Tipos Estruturais

Um celenterado pode ser encontrado na natureza sob duas formas diferentes no aspecto externo, mas essencialmente semelhantes quanto à sua estrutura interna. A forma polipóide ou simplesmente pólipo[3] é cilíndrica e tem uma extremidade fixa ao substrato e outra livre, e na qual está a boca, circundada por tentáculos, sendo geralmente séssil. A forma medusóide ou medusa[4] tem o corpo gelatinoso, semelhante a um guarda-chuva invertido, com a boca voltada para baixo e cercada de tentáculos, os quais, dando o aspecto de uma cabeleira revolta, permitiram a associação com a mitológica figura da medusa. Esta é móvel e se desloca ativamente. Tanto o pólipo como a medusa apresentam, apesar das diferenças externas, uma estrutura interna semelhante, com a presença, em ambos, da cavidade gastrovascular[5] abrindo-se para o exterior através da boca e paredes corporais virtualmente iguais, mas com diferenças de espessura.


[3] Pólipo. Forma corporal dos celenterados que é fixa a um certo substrato.

[4] Medusa. Forma corporal dos celenterados que apresenta mobilidade.

[5] Cavidade gastrovascular. É a cavidade digestiva dos celenterados.

1.4     Organização

Os celenterados são em geral carnívoros. A hidra alimenta-se de pequenos crustáceos e larvas de insetos, enquanto a água-viva pode capturar pequenos peixes, que também se constituem no principal alimento das anêmonas, ao lado de moluscos e outros invertebrados. A presa é paralisada graças à ação dos cnidoblastos, manipulada pelos tentáculos e colocada na boca, por onde chega à cavidade gastrovascular. Enzimas secretadas pelas células glandulares da gastroderme encarregam-se da digestão extracelular. O processo continua no interior das células epitélio-digestivas, nas quais é feita a digestão intracelular, sendo que os produtos da digestão passam para outras células por difusão. Os materiais não digeríveis são eliminados através da boca por contração do corpo.

Trocas gasosas são feitas por difusão direta entre células e água através de qualquer ponto da superfície corporal. Também não há órgãos excretores e a eliminação dos resíduos metabólicos também ocorre por difusão direta com a água.

O sistema nervoso é primitivo, constituindo-se de uma rede irregular de células nervosas localizada abaixo da epiderme, embora alguns cnidários possam apresentar uma rede nervosa gastrodérmica. De forma geral, as células sensitivas recebem estímulos, as células nervosas conduzem impulsos e as fibras contráteis reagem a eles, o que confere ao animal uma certa capacidade reflexa, ou seja, podem reagir de forma coordenada aos estímulos que recebem. Entretanto, não há um sistema nervoso central. Em medusas são encontrados estatocistos, estruturas que dão ao animal noção de posição dentro da água e facilitam a manutenção do equilíbrio.

Embora os pólipos sejam normalmente sésseis, a hidra pode se locomover através de movimentos que lembram uma “cambalhota”. Para isso, dobra o corpo, fixa os tentáculos ao substrato através dos nematocistos, ergue o disco basal e muda-o para outra posição, retomando sua postura habitual. Pode também flutuar, desprendendo disco basal, que secreta uma bolha gasosa capaz de levar o animal à superfície. Já as medusas têm locomoção ativa, movendo-se graças às fibras contráteis e à mesogléia fortalecida que permitem uma natação delicada. Através de eliminação de água a alta pressão (jatopropulsão) pela parede do corpo, podem ganhar um satisfatório impulso inicial.

Locomoção em celenterados: A) A movimentação de medusas se faz por contrações do corpo e expulsão de jatos de água, o que produz deslocamento do animal. B) Hidras podem nadar, deslizar sobre a base e até executar cambalhotas.

2     Classificação e Reprodução dos Celenterados

2.1     Classificação

O filo Cnidaria é dividido em três classes:

A. Classe Hydrozoa

Os membros desta classe se caracterizam por apresentar a forma de pólipo como predominante. Os hidrozoários mais conhecidos são: Hydra sp, pequeno pólipo de água doce, que tomamos como modelo para o grupo e que costuma estar associado a algas verdes ou pardas que lhe conferem cores características; Obelia sp, colônia fixa; e Physalia pelagica, a caravela, que é uma colônia flutuante de pólipos.

B. Classe Scyphozoa

(do grego skyphos = taça)
Aqui a forma de medusa é a predominante. Destacam-se: Aurelia aurita ou água-viva; Chironex fleckeri, a vespa-marinha; e Haliclystus sp, que, apesar de medusa, prende-se ao substrato por meio de um pedúnculo.

C. Classe Anthozoa

(do grego anthos = flor)
Passam somente pela forma de pólipo, embora apresentem importantes diferenças em relação aos pólipos das outras classes já citadas. Anêmonas e corais fazem parte deste grupo.

2.2     Reprodução

Entre os celenterados existe reprodução assexuada e sexuada. A reprodução assexuada ocorre usualmente através de brotamento, como na hidra, na qual um broto projeta-se do meio da parede do corpo, alonga-se, adquire tentáculos e então destaca-se do indivíduo inicial, passando a formar uma nova hidra. As colônias de celenterados, como é o caso dos conhecidos corais, também se formam por brotamento, apenas com a diferença de que o broto não se solta do indivíduo inicial e produz novos brotos, terminando por formar agrupamentos com milhares de organismos unidos fisicamente. A capacidade de regeneração também é grande entre os celenterados. Se uma hidra viva, por exemplo, for cortada transversalmente em dois ou mais pedaços, cada um regenerará uma hidra completa, porém menor.

Na reprodução assexuada por brotamento, em hydra, forma-se um novo indivíduo geneticamente igual ao inicial, que se desprende do genitor e se fixa num substrato.

No processo de reprodução sexuada, o que mais chama a atenção entre os celenterados é a metagênese oualternância de gerações: na mesma espécie, ao longo de seu ciclo vital, há as formas de pólipo e medusa. A título de exemplo, vamos analisar a metagênese de dois celenterados bem conhecidos.

A. Obelia

É um cnidário da classe dos hidrozoários, marinho e colonial, encontrado fixo a rochas, conchas ou estacas em águas costeiras. A pequena colônia é presa por uma haste denominada hidrorriza de onde partem delicadas ramificações, os hidrocaules. É considerada uma colônia dimórfica porque compreende centenas de pólipos microscópicos de dois tipos: o gastrozoóide, semelhante a uma hidra, atua na defesa e captura de alimento; o gonozoóide ou gonângio, de forma cilíndrica, apresenta função exclusivamente reprodutiva. Percebe-se então que Obelia, como é típico das colônias, apresenta clara divisão de trabalho entre seus indivíduos componentes. Os dois tipos de pólipos são produzidos por brotos do caule. O gonozoóide contém um eixo central no qual podem se formar brotos que se desenvolvem em hidromedusas (medusas de hidrozoários). Estas escapam dos gonângios e flutuam no mar. São dióicas e possuem gônadas produzidas a partir de células intersticiais da epiderme. Os gametas são liberados na água, sendo a fecundação externa. O desenvolvimento é indireto, pois do zigoto desenvolve-se uma larva ciliada, característica dos celenterados, denominada plânula. Depois de nadar ativamente por algum tempo, esta se fixa e cresce, formando um pólipo jovem que, por brotamentos, formará nova colônia. Portanto, além de haver uma alternância entre duas formas estruturalmente distintas ao longo do ciclo, há também uma alternância de tipos de reprodução, pois o pólipo realiza reprodução assexuada (brotamento) para formar as medusas e estas se reproduzem sexuadamente (fecundação externa) para produzir novo pólipo.

Metagênese em Obelia, mostrando a estrutura de sua colônia dimórfica

B. Aurelia

As cifomedusas, como a água-viva, também realizam metagênese. São dióicas, porém sem dimorfismo sexual, ou seja, não é possível distinguir macho de fêmea apenas pelo aspecto externo. A fecundação é interna, ocorrendo na cavidade gastrovascular da fêmea. Mais uma vez o desenvolvimento é indireto: do zigoto desenvolve-se uma larva plânula livre-natante que deixa o corpo da fêmea e, após algum tempo, fixa-se, dando origem a um pólipo denominado cifístoma. Este cresce e depois se divide transversalmente num processo chamado estrobilização: formam-se constricções horizontais ao redor do corpo que se aprofundam até que o organismo fique com a aparência de uma pilha de “pires” com bordas serrilhadas. Cada “pires” é na verdade um novo tipo larval chamado éfira. As éfiras se separam, invertem-se, nadam e cada uma cresce para se tornar uma cifomedusa adulta. Mais uma vez o pólipo se reproduz assexuadamente (estrobilização) e a medusa faz reprodução sexuada (fecundação interna).

Ciclo de vida do cifozoário Aurelia. O estágio polipóide produz medusas por botamento transversal

Fonte: Sistema COC de Educação e Comunicação

Platelmintos

1     Apresentação

Os platelmintos são os primeiros animais da escala zoológica a apresentarem simetria bilateral com um formato corporal tal que só podem ser divididos imaginariamente em duas metades iguais. A simetria bilateral está relacionada diretamente com a capacidade de movimentação do animal. A parte do corpo que primeiro entra em contato com o ambiente (extremidade anterior) contém a maioria dos órgãos sensoriais e difere da extremidade oposta (posterior). Os platelmintos formam o mais primitivo de todos os filos bilatérios, representando uma transição para a estrutura complexa dos animais superiores que também são bilateralmente simétricos.

O filo Platyhelminthes (do grego, platy = achatado; helminthes = verme) contém os animais conhecidos como vermes achatados por terem o corpo mole e fino. Aliás, o termo “verme” é empregado popularmente para designar os animais desprovidos de patas e que apresentam o corpo alongado.  No caso dos platelmintos, a essas características soma-se o fato de o corpo lembrar uma fita, pois é achatado no sentido dorso-ventral. Os representantes de vida livre podem ser encontrados na água doce ou salgada ou mesmo em lugares úmidos na terra. Há muitos representantes parasitas, encontrados aderidos à superfície exterior do corpo do hospedeiro (ectoparasitas) ou habitando o interior de seu organismo (endoparasitas). Muitos são causadores de sérias doenças ao homem, como o Schistosoma, causador da esquistossomose ou barriga-d’água e Taenia ou solitária, que provoca a teníase.

Entre os platelmintos de vida livre, a grande maioria vive no mar. Entre os organismos de água doce e terrestres há representantes grandes e de cores brilhantes. São conhecidos popularmente como planárias, com destaque para a aquática Dugesia e a terrestre Geoplana.

Representantes dos platelmintos

 2     Características Gerais

Como exemplo de platelminto podemos escolher a planária, organismo de vida livre que tem esse nome pelo fato de apresentar o corpo plano ou achatado. As planárias são encontradas geralmente em água doce, vivendo no fundo de lagoas ou riachos, sob pedras, folhas e galhos. Apresentam tamanho reduzido, raramente ultrapassando 2 cm de comprimento e 5 mm de largura. Entretanto, as planárias terrestres são os gigantes entre os platelmintos, podendo chegar a mais de 60 cm de comprimento. As características descritas a seguir existem na planária e em todos os platelmintos de vida livre. As formas parasitas algumas vezes exibem grandes mudanças devido ao peculiar modo de vida que adotaram no curso de sua evolução.

2.1     SIMETRIA BILATERAL

Este é o primeiro filo a apresentar esta característica na escala zoológica. Devido à simetria bilateral, define-se no corpo da planária uma extremidade anterior (voltada para a frente) e outra posterior (voltada para trás), assim como uma face dorsal (oposta ao substrato) e outra ventral (em contato com o substrato). A extremidade anterior é mais larga e tem forma triangular, lembrando uma pequena cabeça, enquanto a extremidade posterior é afilada. A face dorsal é mais pigmentada que a ventral.  Esta  pode  ser  reconhecida por duas aberturas: a boca, situada no meio do corpo, a partir da qual pode ser estendida a faringe musculosa, chamada probóscide, que é usada na obtenção de alimento; e o poro genital, usado na reprodução, que fica atrás da boca.

Planária

2.2     CEFALIZAÇÃO

É a concentração dos centros nervosos e das principais estruturas sensitivas na região anterior do corpo, sendo os platelmintos os primeiros animais a exibi-la na escala evolutiva. Isso facilita a exploração do ambiente durante o deslocamento do animal. Percebe-se com facilidade, na região cefálica, expansões laterais, asaurículas, que estão relacionadas com a sensibilidade. Dorsalmente há um par de ocelos, estruturas sensitivas que não devem ser confundidas com olhos, pois não formam imagens.

2.3     REVESTIMENTO DO CORPO

A planária é revestida externamente por uma camada de células que forma a epiderme. Essas células epidérmicas estão apoiadas na membrana basal e funcionam como um esqueleto elástico e flexível. A epiderme ventral é rica em cílios e no interior do corpo há glândulas que secretam uma espécie de muco útil no deslizamento e locomoção.

2.4     MESODERME

No embrião desenvolve-se uma terceira camada de células; além da ectoderme e da endoderme, surge a mesoderme, responsável por originar uma série de órgãos, o que explica a maior complexidade estrutural dos platelmintos em relação aos celenterados. É a mesoderme que origina o sistema muscular do animal, com fibras contráteis que podem estar orientadas no sentido do comprimento do corpo, formando a musculatura longitudinal ou orientadas circularmente, formando a musculatura circular. Assim, o animal pode alongar-se, encurtar-se ou voltar-se para qualquer direção, conforme os estímulos que recebe. A mesoderme também forma o mesênquima, um tecido esponjoso constituído por células indiferenciadas, com grande capacidade de regeneração, que preenche o interior do corpo, não havendo uma cavidade interna.

2.5     SISTEMA DIGESTIVO, EXCRETOR E REPRODUTOR

A planária de água doce é carnívora e se alimenta por meio da faringe ou probóscide, que é extensível. Os ocelos são sensíveis à luz.

3     Organização e Funcionamento

As planárias são carnívoras e alimentam-se de pequenos animais, vivos ou mortos. Aliás, o método mais simples de coletá-las é colocar pequenos pedaços de carne dentro d’água, a partir dos quais difundem-se sucos que logo atraem grande número delas. A faringe ou probóscide é projetada sobre o alimento a partir da boca ventral e suga-o em pequenos pedaços por ação muscular. Neste momento já se inicia a trituração ou digestão mecânica do alimento. Após a faringe há o intestino ramificado, com dois ramos posteriores e um anterior.  Células glandulares da parede intestinal produzem enzimas que realizam a digestão extracelular. As partículas menores de alimento são englobadas por outras células do epitélio intestinal e ocorre a digestão intracelular. Mesênquima e tecidos absorvem diretamente os produtos da digestão. Como não existe ânus, a eliminação dos resíduos ocorre pela própria boca. As planárias podem suportar bastante tempo sem alimento. Podem até mesmo, em casos extremos, utilizar parte do intestino, todo o mesênquima e o sistema reprodutor como fonte nutritiva, reduzindo o volume do corpo a 1/300 do original.

As trocas gasosas ocorrem por difusão direta através da epiderme, não existindo órgãos respiratórios. Os gases difundem-se diretamente de célula a célula, não havendo líquido circulatório.

A planária e as trocas gasosas

Os resíduos nitrogenados, na forma de amônia, deixam o organismo por simples difusão através da superfície do corpo. Um sistema formado por uma série de pequenas células chamadas solenócitos ou células-flama é o responsável por realizar a regulação osmótica, recolhendo o excesso de água diretamente dos tecidos do corpo e eliminando-o por um sistema de dutos que se abrem através de poros dorsais.

O sistema excretor dos platelmintos apresenta dois ou mais túbulos coletores ramificados que percorrem longitudinalmente o corpo. Na planária, abrem-se na superfície do corpo por meio de pequenos poros. As unidades excretoras são as células-flama, dentro das quais o movimento de um tufo de cílios lembra uma chama. Água e excretas provenientes dos tecidos são enviados para os túbulos pelos movimentos ciliares. deixando o corpo pelos poros excretores

Apesar de freqüentemente aquáticas, as planárias não têm capacidade de nadar. A locomoção é feita por deslizamento sobre o substrato, com a extremidade anterior indo ligeiramente levantada à frente. Os batimentos dos cílios ventrais sobre uma camada de muco são os responsáveis por estes movimentos. A ação muscular é útil em movimentos de virada ou torção da cabeça que possibilitam exploração ambiental. Como é característico dos invertebrados, as planárias apresentam um sistema nervoso situado ventralmente. Têm o formato semelhante ao de uma escada de cordas. Os centros nervosos estão representados por um par de gânglios cerebrais, localizados na região anterior, nos quais partem dois cordões nervosos longitudinais em direção à região posterior, interligados por nervos menores. Acima dos gânglios cerebrais, na superfície dorsal, ficam os ocelos, que são estruturas fotorreceptoras, pois percebem variações da intensidade luminosa, permitindo a orientação do animal em seu hábitat. Nas aurículas existem quimiorreceptores correspondentes aos sentidos de gustação e olfato. Os platelmintos são os primeiros animais a possuir centros nervosos, com ações mais coordenadas com respostas mais elaboradas aos estímulos.

Os sistemas excretor, digestivo, reprodutor e nervoso
da planária

4     PLATELMINTOS PARASITAS

4.1     Esquistossomose

Também conhecida como bilharziose ou barriga-d’água, é muito comum em certas áreas do país, que têm características de endêmicas[1]. Hoje, a maior frequência de esquistossomose no Brasil está localizada em estados da região Nordeste e áreas de Minas Gerais e Espírito Santo. Entretanto, a possibilidade de expansão das áreas endêmicas é grande devido a uma série de fatores: freqüentes migrações populacionais inter-regionais, ocupação de áreas sem estudo prévio das condições de salubridade, crescimento populacional não acompanhado de expansão dos serviços de tratamento de água e esgoto, falta de educação sanitária para as populações humanas. Percebe-se, portanto, que é uma doença dependente das condições socioeconômicas humanas.

4.1.1     AGENTE ETIOLÓGICO[2]

O causador da esquistossomose é o platelminto Schistosoma mansoni, verme heteroxeno[3] e deinfestação ativa, pois suas larvas penetram ativamente pela pele humana. Os adultos são dióicos[4], com claro dimorfismo sexual[5]: o macho, medindo cerca de um centímetro de comprimento, tem o corpo alongado, com duas ventosas de fixação na região anterior e um canal ginecóforo[6] que se projeta para a região posterior e que, na verdade, é um enrolamento do verme sobre si mesmo, para abrigar a fêmea e fecundá-la. A fêmea tem cerca de 1,5 cm, corpo também alongado e uma ventosa na extremidade anterior.

Casal de Schistosoma mansoni

4.1.2     VETOR

Os hospedeiros intermediários[7] e, ao mesmo tempo, transmissores da esquistossomose, são caramujos da família dos planorbídeos, comum em ambientes de água doce, parada ou de pouca correnteza, como lagos, lagoas e riachos. Pertencem ao gênero Biomphalaria, com destaque para a espécie B. glabrata.

4.1.3     LOCAL DE AÇÃO

No homem, os vermes adultos vivem no sistema porta hepático, um conjunto de vasos sangüíneos que irrigam a região do fígado. A ação estende-se aos vasos da parede intestinal, onde é feita a postura dos ovos.

4.1.4     O CICLO BIOLÓGICO

http://www.youtube.com/watch?v=AfDhVAjROqM&feature=youtu.be

O verme vive cerca de 5 anos, em média, durante os quais as fêmeas fecundadas realizam a postura dos ovos em vasos da parede intestinal e alguns dos ovos atingem a luz do intestino, empurrados pela grande pressão do fluido circulatório, que é interrompido por eles, ou mesmo devido à ação de enzimas digestivas secretadas no interior dos próprios ovos.

Ovo de Schistosoma mansoni, dotado de uma espícula latera

Os ovos que atingem a luz intestinal são eliminados juntamente com o bolo fecal e acabam por alcançar a água, onde se abrem, liberando larvas denominadas miracídios. Estes têm um formato oval e são ciliados. Nadam ativamente à procura dos caramujos que lhes servem de hospedeiros e morrem em aproximadamente oito horas se não encontrá-los. Os miracídios que encontram os caramujos penetram pelas partes moles, perdem  os  cílios  e  transformam-se  em  esporocistos, em cujo interior existem células reprodutivas que se desenvolverão em formas larvais chamadas cercárias. A partir de um único miracídio, podem ser reproduzidas mais de 100 mil cercárias, dotadas de uma espécie de cauda bifurcada.

Schistosoma mansoni: 1 – miracídio e 2 – cercária

Cerca de um mês após a penetração do miracídio no caramujo, as primeiras cercárias são eliminadas. Vivem dois dias, no máximo, e nadam ativamente. Ao entrarem em contato com a pele humana, as cercárias se fixam entre os folículos pilosos, rompem a pele e penetram no corpo, perdendo a cauda durante o processo. Migram pelo tecido subcutâneo, atingem os vasos sangüíneos e alojam-se no sistema porta hepático, onde atingem a maturidade.

4.1.5     SINTOMAS

Quando as cercárias penetram pela pele humana causam uma espécie de dermatite, que começa com forte coceira seguida de inflamação local. Por isso, as lagoas onde a transmissão do verme acontece são popularmente conhecidas como lagoas de coceira. A obstrução de vasos sangüíneos hepáticos causa dificuldades para a irrigação normal de áreas do fígado, podendo provocar necroses. Os vermes adultos debilitam o doente por consumirem elevados teores de ferro e glicose devido ao seu alto metabolismo. O rompimento da parede intestinal por grande número de ovos provoca hemorragias, enquanto que os ovos que não provocam o rompimento causam inflamações. Freqüentemente a doença evolui para uma forma crônica com a manifestação mais evidente que é a ascite oubarriga-d’água, uma grande dilatação abdominal devido ao acúmulo de água nos tecidos, além de dilatação de fígado e baço.

4.1.6     PROFILAXIA

Como medidas profiláticas mais importantes podem ser citadas:

● tratamento dos doentes com medicamentos específicos, de modo a eliminar os focos de dispersão dos ovos;

● medidas de saneamento básico, com a instalação de fossas e rede de esgotos, na tentativa de evitar que fezes contaminadas atinjam diretamente a água;

● combate aos caramujos com o uso de venenos e, o mais indicado, por meio de técnicas de controle biológico, por exemplo, o uso de peixes que comem ovos e filhotes;

● educação sanitária, com informações às populações sobre a importância da utilização de fossas e sanitários;

● higiene pessoal, evitando-se, sobretudo, o contato com ambientes aquáticos onde existam caramujos e, conseqüentemente, chances de contaminação.

4.2     Teníase e Cisticercose

São duas moléstias distintas causadas pelo mesmo verme, mas em estágios diferentes da vida. Conhecidas desde épocas remotas, pensou-se durante muito tempo que fossem provocadas por fenômenos ou espécies diferentes. Estão disseminadas por todo o mundo, inclusive no Brasil, onde atingem muitas pessoas.

4.2.1     AGENTE ETIOLÓGICO

Os vermes causadores da teníase são os platelmintos Taenia solium e Taenia saginata, ambosheteroxenos e de infestação passiva. Apenas a primeira causa cisticercose humana. As tênias são também conhecidas como solitárias, indicando que existe apenas um indivíduo por hospedeiro. Na verdade, as pessoas podem ser infestadas por mais de uma tênia da mesma espécie. Estes vermes são hermafroditas, reproduzindo-se sexuadamente por autofecundação e, portanto, não necessitando de outro parceiro.

O corpo das tênias é longo e achatado. Na região anterior existe uma cabeça ou escólex com quatro ventosas fixadoras e, apenas em T. solium, um rostro com ganchos. Abaixo do escólex está o pescoço ou colo, região de contínua divisão celular e que promove o crescimento do verme. O corpo é formado pela união de anéis denominados proglótides, cujo número pode variar entre 800 e 1000, levando a um tamanho de 3 metros em T. solium e 8 metros em T. saginata, embora formas maiores já tenham sido encontradas. Não há um tubo digestivo unificado no animal, sendo que cada proglótide recebe seu alimento por difusão. Cada anel também apresenta aparelhos reprodutores masculino e feminino completos. As proglótides mais próximos do escólex são chamadas de jovens e são imaturas sexualmente; já as mais distantes são maduras e estão aptas para a fecundação. As proglótides grávidas são aquelas que já foram fecundadas e estão repletas de ovos.

Taenia solium, a tênia do porco, com detalhes que mostram o escólex e regiões corporais

4.2.2     VETOR

O porco é o hospedeiro intermediário da T. solium, enquanto o boi é hospedeiro intermediário daT. saginata. As carnes de porco ou de boi contaminadas pelas respectivas larvas são as transmissoras da teníase. A cisticercose só chega ao homem pela ingestão de ovos da T. solium contidos em água ou verduras.

4.2.3     LOCAL DE AÇÃO

Os vermes adultos vivem no intestino delgadodo homem, enquanto as larvas, que são causadoras da cisticercose, são encontradas no tecido muscular, cerebral e no olho de suínos e bovinos. As larvas de T. solium acidentalmente atingem o homem e o cão.

4.2.4     CICLO BIOLÓGICO

O homem doente elimina as proglótides grávidas cheias de ovos para o meio exterior por meio das fezes. Após seu rompimento, os ovos são liberados para o solo e água, sendo ingeridos por um hospedeiro intermediário próprio (porco ou boi, dependendo da espécie). No intestino do animal, os ovos se abrem, liberando pequenas larvas que penetram na mucosa intestinal, atingem o sistema circulatório e se deslocam para outras regiões, sobretudo músculos. Ali se encistam, originando os cisticercos, formas larvais imóveis que podem atingir até doze milímetros de comprimento após quatro meses de infestação. O homem ingere os cisticercos ao comer a carne contaminada de porco ou de boi crua ou malcozida. Por ação dos sucos digestivos, o cisticerco deixa a forma encistada no intestino humano e everte-se, formando um pequeno escólex que se prende à mucosa do intestino delgado e cresce, produzindo uma tênia adulta. A T. solium vive cerca de 3 anos no hospedeiro e a T. saginata aproximadamente 10 anos, ambas desprendendo proglótides grávidas durante sua vida. Como o colo produz novas proglótides, o tamanho do animal se mantém constante.

O homem pode ingerir os ovos da solitária contidos em água não tratada e verduras mal lavadas. Se forem da espécie T. solium, tais ovos abrem-se no intestino e as larvas migram para tecidos moles, como pele, olhos e principalmente cérebro, onde se encistam dando origem aos cisticercos. Alojando-se no tecido cerebral, podem causar uma séria moléstia conhecida como neurocisticercose ou cisticercose cerebral. Neste caso, o homem fez o papel de hospedeiro intermediário.

Ciclo de vida da Taenia solium

Ciclo de vida da Taenia saginata

4.2.5     SINTOMAS

Quando a solitária parasita a região intestinal do homem por longo tempo, pode provocar alergia tóxica por causa de substâncias excretadas, hemorragias pela fixação na mucosa e destruição do epitélio intestinal. O parasita compete com o hospedeiro pelo alimento que chega ao intestino, levando a uma necessidade crescente de ingerir mais comida, mas sem aumento de peso. Náuseas, vômitos e dores abdominais podem ocorrer também.

A neurocisticercose apresenta manifestações muito mais graves, causando inflamações no tecido nervoso. Após cerca de seis meses da infestação, o cisticerco morre e calcifica-se. Os sintomas podem então evoluir para dores de cabeça, convulsões e alucinações. Há casos de cisticercose no coração, provocando alterações no ritmo desse órgão; ocular, podendo levar à perda da visão; e muscular, causando dores localizadas.

4.2.6     PROFILAXIA

Contribuem para a redução da incidência de teníase e cisticercose medidas como:

● tratamento dos doentes, de modo a evitar a disseminação dos ovos;

● melhoria nas condições de saneamento básico, com extensão da rede sanitária, pois as fezes humanas contaminadas carregam os ovos para a água;

● cuidados maiores na criação de animais, cuja água deve ser tratada;

● evitar o consumo de carne malcozida e de água não-tratada ou verduras mal lavadas, reduzindo as chances de se adquirir teníase e cisticercose, respectivamente.

Fonte: Sistema COC de Educação e Comunicação

Nematelmintos

1     Apresentação

O filo Nemathelminthes (do grego, nematos = fio; helminthes = verme) é formado por uma grande variedade de animais de corpo alongado e cilíndrico e, por isso, conhecidos como vermes cilíndricos. Podem ter vida livre, sendo geralmente diminutos e até microscópicos ou ser parasitas, podendo alcançar vários centímetros de comprimento.

Alguns nematelmintos comuns

Alguns autores preferem chamá-los de asquelmintos. Deve-se tomar muito cuidado com o uso deste termo, que, segundo a tendência mais moderna da classificação biológica, designa uma série de filos com certas características comuns, um dos quais é o filo Nemathelminthes. Além dele, formam também o grupo dos asquelmintos outros filos compostos por animais não muito conhecidos, tais como Rotifera, Nematomorpha, Gastrotricha, Kinorhyncha e Acantocephala. Dentre todos esses filos, o maior, com cerca de 10 mil espécies descritas, e o que mais interesse desperta é realmente o filo Nemathelminthes, pois muitos de seus representantes são parasitas, infestando safras de produtos alimentícios, animais domésticos e o próprio homem. Assim, podemos tomar os nematelmintos como modelo para o estudo dos asquelmintos, mas tendo sempre em mente que são designações diferentes.

Os nematelmintos de vida livre são encontrados no mar, na água doce e no solo, existindo desde as regiões polares até as tropicais, em todos os tipos de ambientes, incluindo desertos, fontes termais, montanhas e grandes profundidades oceânicas. As formas parasitas atacam virtualmente todos os grupos vegetais e animais. Os parasitas de plantas podem viver em raízes, sementes e frutos, produzindo ovos dos quais saem larvas que se alimentam dos tecidos da planta. Muitas vezes formam-se, na região da planta atacada pelo verme, nódulos protetores chamados galhas. Os parasitas de animais podem provocar doenças que freqüentemente debilitam o hospedeiro e, eventualmente, podem matá-lo. Alguns dos grandes problemas de saúde pública que afligem a população brasileira são causados por eles.

Galhas no caule produzidas por nematódeos em plantas

Dentre os nematelmintos, os representantes mais conhecidos do grupo são a lombriga, o ancilostoma e o oxiúros, parasitas intestinais humanos, além das filárias, causadoras da elefantíase.

1.1     Características Gerais

Os nematelmintos mais conhecidos são, sem dúvida, as lombrigas (Ascaris lumbricoides), parasitas do homem e também de outros animais, como o porco. Estruturalmente são seres muito simples, com o corpo alongado (pode chegar a mais de 30 cm de comprimento), delgado, cilíndrico e afilado nas extremidades. São organismos dióicos e exibem dimorfismo sexual, ou seja, é fácil, somente pela aparência externa, distinguir o macho da fêmea. O primeiro tem a extremidade posterior recurvada e espículas peniais, úteis no momento da cópula, em torno do ânus. A segunda tem formato retilíneo, com um poro genital ventral no meio do corpo, e, geralmente, é maior que o macho.

Algumas características diferenciam as lombrigas e os nematelmintos em geral dos platelmintos, o outro grupo de vermes:

● epiderme sincicial, isto é, constituída por uma massa protoplasmática multinucleada, sem membranas celulares (sincício), e responsável pela produção dacutícula mais externa, acelular, lisa e dura, que serve como proteção.

● inexistência de cílios e ventosas.

● músculos exclusivamente longitudinais, paralelos ao eixo do corpo, reduzindo a capacidade de locomoção nos seres de vida livre, que executam movimentos mais limitados.

● tubo digestivo completo, ou seja, dotado de duas aberturas: a boca abre-se na extremidade anterior, entre 3 lábios, enquanto o ânus é uma fenda posterior subterminal (localizada pouco antes da extremidade), em posição ventral. Aliás, são os asquelmintos os primeiros animais da escala zoológica a exibir ânus.

● existência de uma cavidade interna onde os órgãos ficam alojados, sobretudo o aparelho reprodutor, que tem a aparência de uma série de fios muito finos. São também os primeiros animais a apresentar esta característica. A organização do animal lembra um tubo dentro de outro tubo: o interno seria o sistema digestivo e o externo, a parede do corpo. O espaço entre os dois seria a cavidade do corpo, preenchida por um líquido que auxilia na remoção de elementos tóxicos e na circulação de alimentos e gases.

Estrutura interna de uma fêmea de lombriga

Muitos nematelmintos de vida livre são carnívoros, alimentando-se de pequenos animais, incluindo outros nematelmintos. Alguns são fitófagos, ingerindo algas e seivas de plantas. Podem apresentar placas cortantes na boca e secretar enzimas no tubo digestivo. Os parasitas, como a lombriga, podem receber alimento já semi-digerido no tubo digestivo do hospedeiro.

Não há órgãos respiratórios nem sistema circulatório. Os animais de vida livre usam oxigênio, obtendo-o por difusão direta, e os parasitas são anaeróbicos e fazem fermentação. Gases respiratórios e partículas alimentares podem ser distribuídos com o auxílio do líquido que preenche a cavidade corporal.

As células lançam seus resíduos e excretas na cavidade corporal, de onde são retirados por três canais excretores arranjados de tal maneira que formam um “H” (dois canais laterais conectados através de um canal transversal) e eliminados por um poro excretor ventral situado próximo à boca. O sistema nervoso é constituído por um anel de células nervosas em torno do esôfago associado a dois cordões nervosos longitudinais (dorsal e ventral) e alguns nervos menores.

Em relação à reprodução, os nematelmintos são dióicos e apresentam aparelho reprodutor bem organizado. Nas lombrigas, durante a cópula, o macho se enrola em torno da fêmea, prendendo-se a ela com o auxílio das espículas peniais. São então conectadas as aberturas genitais (ânus do macho e poro genital da fêmea), ocorrendo a transferência de espermatozóides. A fecundação, portanto, é interna. Os ovos ficam alojados no útero da fêmea e possuem casca dura. O desenvolvimento é indireto, com a existência de larvasrabditóides e filarióides.

2     Nematelmintos Parasitas

2.1     Ascaridíase

Verminose comum em países do Terceiro Mundo, incluindo o Brasil, pois está totalmente vinculada a condições precárias de higiene e saneamento básico.

2.1.1     AGENTE ETIOLÓGICO

O causador da ascaridíase é o verme nematelmintoAscaris lumbricoides, conhecido popularmente comolombriga. São monoxenos[1] e de infestação passiva, tais vermes são dióicos e têm claro dimorfismo sexual. O macho tem de 20 a 30 cm de comprimento e corpo alongado, recurvado na extremidade posterior. A fêmea é maior (30 a 40 cm de comprimento) e mais grossa, tendo o corpo retilíneo.

2.1.2     VETOR

Não há hospedeiro intermediário. A contaminação acontece pela ingestão de água e verduras contaminadas por ovos do verme.

2.1.3     LOCAL DE AÇÃO

Os vermes adultos habitam o intestino delgadohumano, podendo ficar aderidos à mucosa ou migrar pela luz intestinal. Durante o desenvolvimento, as formas larvais podem passar por vários órgãos antes de se estabelecerem definitivamente no intestino.

2.1.4     CICLO BIOLÓGICO

No intestino do doente, os vermes adultos se acasalam e a fêmea é capaz de colocar cerca de 200 mil ovos por dia, que chegam ao meio exterior com as fezes. Sob condições ambientais adequadas, os embriões se desenvolvem em 15 dias e depois evoluem para formas larvais denominadas rabditóides, que podem permanecer dentro dos ovos por vários meses, até que eles sejam ingeridos pelo hospedeiro. Neste momento, atravessam o trato digestivo do hospedeiro e eclodem no intestino delgado. As larvas liberadas atravessam a parede intestinal, entram na circulação linfática e atingem o fígado cerca de um dia após a infestação. Por meio de vasos sangüíneos são levadas para o coração cerca de 3 dias depois. Mais 2 dias e migram para os pulmões, onde rompem os capilares e caem nos alvéolos, subindo pelas vias aéreas e chegando à faringe. Com a tosse podem ser expelidas ou deglutidas, atravessando o estômago sem sofrer danos e fixando-se no intestino delgado. São decorridos cerca de 30 dias da infestação e, durante o trajeto, as larvas rabditóides sofrem várias mudanças e se transformam, aos poucos, em jovens adultos. Em 60 dias alcançam a maturidade sexual e já podem ser encontrados ovos nas fezes do hospedeiro. O verme pode viver no organismo por mais de um ano. A esse deslocamento do verme pelo organismo do hospedeiro dá-se o nome decircuito hepático-cárdio-pulmonar ou ciclo de Looss, em homenagem ao seu descobridor.

Ciclo de Ascaris lumbricoides

2.1.5     SINTOMAS

As larvas podem provocar lesões hepáticas ou pulmonares, com focos hemorrágicos e de necrose. A gravidade da doença depende da quantidade de vermes que estão infestando a pessoa. Nas infestações maciças, que são aquelas com mais de 100 vermes, pode ocorrer enfraquecimento orgânico, pois os vermes consomem muita proteína, carboidrato, lipídio e vitaminas do hospedeiro, além de obstrução intestinal, pois os vermes podem enovelar-se na luz do intestino e no apêndice vermiforme. Intoxicações e reações alérgicas, provocadas pelo sistema imunológico do hospedeiro, podem também ocorrer.

2.1.6     PROFILAXIA

As medidas de controle da doença incluem o tratamento do doente com medicamentos específicos e cuidados especiais na alimentação; saneamento básico, com a construção de sanitários e fossas, extensão e tratamento de esgoto e de água; educação sanitária e informação à população mais carente; higiene pessoal e alimentar, com cuidados especialmente com água e verduras.

2.2     Ancilostomose ou Amarelão

Esta verminose, que também é conhecida comoamarelão ou opilação, tem maior freqüência em regiões quentes e úmidas e, no Brasil, atinge muitas pessoas na zona rural e áreas urbanas de grande concentração populacional, onde as condições de saneamento básico são precárias, como as favelas. Provoca grande enfraquecimento orgânico e é freqüentemente associada, de maneira errônea, à preguiça, por deixar o doente sem disposição para o trabalho. Monteiro Lobato representou tal característica em seu famoso personagem Jeca Tatu, criado como modelo do habitante do interior pobre do país, e explicou: “O Jeca não é assim; ele está assim”.

Jeca Tatu – contaminado pelo verme do amarelão

2.2.1     AGENTE ETIOLÓGICO

Dois vermes nematelmintos são os responsáveis por causar o amarelão: Necator americanus eAncylostoma duodenale, sendo que no Brasil o primeiro é mais freqüente. Ambos são monoxenos e de infestação ativa. Dióicos, macho e fêmea apresentam aspecto cilíndrico, com cerca de 1 cm de comprimento e características que definem um dimorfismo sexual. A distinção entre as duas espécies é feita principalmente pela estrutura bucal, pois existem placas cortantes em Necator e uma série de dentes pontiagudos em Ancylostoma.

Regiões bucais dos vermes: em A, de Ancylostoma duodenale e, em B, de Necator americanus

2.2.2     VETOR

Não há hospedeiro intermediário e a transmissão é feita de uma pessoa para a outra através das fezes humanas contaminadas com as larvas dos vermes depositadas em solo preferencialmente arenoso e úmido. Verifica-se que a transmissão é facilitada quando as condições de saneamento básico da população são precárias: inexistência de sanitários e de sistema de esgoto, com as pessoas defecando no solo.

2.2.3     LOCAL DE AÇÃO

Os vermes adultos são encontrados no intestino delgado firmemente aderidos à mucosa intestinal na qual, através das estruturas cortantes situadas na cavidade bucal, produzem perfurações e sugam o sangue que escorre dos ferimentos. São, portanto, vermes hematófagos[2]. As larvas, durante o seu desenvolvimento no hospedeiro, passam por uma série de órgãos.

2.2.4     CICLO BIOLÓGICO

Os acontecimentos que descreveremos valem para as  duas espécies de vermes causadores do amarelão.

Os adultos se acasalam no intestino do hospedeiro e as fêmeas fazem a postura de grande número de ovos, que atingem o exterior com as fezes. Chegam ao solo em regiões de saneamento básico deficiente e, em seu interior, ocorre o desenvolvimento embrionário. Quando ocorre a eclosão, é liberada uma pequena larva chamada filarióide. Esta movimenta-se no solo úmido à procura de um hospedeiro e, entrando em contato com a pele, geralmente quando a pessoa anda descalça, penetra ativamente em seu corpo com o auxílio de enzimas digestivas. Acredita-se que, sob condições ideais, a larva filarióide possa sobreviver no solo por até dois meses. Após cerca de 20 minutos, as larvas atingem capilares sangüíneos e, levadas pelo sistema circulatório, chegam aos pulmões, onde rompem os alvéolos, sobem pelas vias aéreas e atingem a faringe. Podem ser expelidas em acessos de tosse ou deglutidas. Nesse caso, atingem o duodeno, já na forma adulta, pois, durante o trajeto pelo organismo do hospedeiro, desenvolvem-se, sofrendo várias mudanças. Desde a penetração das larvas até o início de postura pelos vermes adultos, que se estabelecem no intestino, decorrem cerca de dois meses.

Ciclo de vida do Ancylostona duodenale

2.2.5     SINTOMAS

Os principais problemas do hospedeiro serão no intestino. A ação do verme, rompendo a mucosa intestinal, provoca ulcerações acompanhadas de sangramento. Perde-se muito sangue, não apenas dessa maneira, mas pela própria sucção pelo verme, causando perda de hemoglobina e ferro, o que deixa o doenteanêmico e fraco, pois suas células deixarão de receber o oxigênio normalmente. Crianças podem ter problemas de desenvolvimento físico e mental, com diminuição da estatura e da capacidade de aprendizagem. Nesse caso é comum ocorrer a geofagia, ou seja, o doente começa a comer terra, numa atitude impulsiva motivada pela carência de ferro no organismo. A presença das larvas na região pulmonar pode causar hemorragias e facilitar o estabelecimento de pneumonia.

2.2.6     PROFILAXIA

As medidas profiláticas devem incluir:

● o tratamento das pessoas doentes com o uso de medicamentos específicos e uma dieta apropriada que reponha o ferro perdido, impedindo que continuem funcionando como centros de disseminação dos ovos;

● saneamento básico, com extensão da rede de esgoto e construção de sanitários e fossas;

● educação sanitária, informando-se a população, sobretudo as crianças, sobre a necessidade de utilização de sanitários e os problemas da defecação direta no solo;

● higiene pessoal, sobretudo andando calçado em áreas onde as chances de contaminação existam.

2.3     Enterobíase ou Oxiurose

A enterobíase também é conhecida por oxiurose, verminose provocada pelo nematelminto Enterobius vermicularis, conhecido popularmente como oxiúros.

Em relação ao seu ciclo de vida, é um parasita monoxeno e de infestação passiva, sendo transmitido pela ingestão de água e alimentos contaminados com ovos do verme.

Pode ocorrer também a autocontaminação quando o indivíduo, ao coçar o ânus, leva a mão à boca. Essa situação é mais comum em crianças do que em adultos, mas ocorrendo, os ovos são transportados da região anal para a boca e, em seguida para o intestino, no qual eclode uma larva, que torna a doença crônica.

Os vermes adultos vivem no intestino e na região cecal do hospedeiro.

O sintoma típico dessa doença é o prurido (coceira) anal, provocado por uma forte irritação, devido à presença dos ovos do parasita nessa região. Os distúrbios intestinais também ocorrem.

Como medidas de profilaxia, podemos citar o tratamento dos doentes, a higiene pessoal e com os alimentos, medidas de saneamento básico e trocas periódicas das roupas íntimas e de cama.

2.4        Filariose

Conhecida popularmente como elefantíase, é uma verminose originária da África, tendo seu causador vindo para cá com o tráfico de escravos e conseguido se adaptar devido à existência de um bom hospedeiro intermediário e excelentes condições ambientais. O verme causador da elefantíase é Wuchereria bancrofti, dióico, heteroxeno[3] e de infestação ativa. Seu hospedeiro intermediário e também vetor é o mosquito hematófago Culex fatigans. A maior incidência da moléstia no país é encontrada hoje em áreas da região Nordeste e Norte. Os vermes habitam o sistema lin-fático humano, sobretudo nas regiões abdominal e pél-vica, pernas e escroto. A obstrução dos vasos linfáticos pelos vermes adultos provoca problemas na drenagem de linfa nos tecidos adjacentes, criando grandes edemas que, com o passar do tempo, deformam completamente o órgão afetado. Após o acasalamento, as fêmeas liberam ovos dos quais se desenvolvem pequenas larvas, as microfilárias. Essas migram para a circulação sangüínea e podem ser ingeridas por um mosquito que esteja realizando atividade hematófaga. No mosquito, as larvas rompem a parede do estômago e migram para o aparelho bucal. Não chegam a ser inoculadas no homem, mas apenas aproveitam o momento em que o mosquito está sugando o sangue da pessoa, para deixar o aparelho bucal e penetrar pela pele sã ou lesada. Atingem o sistema linfático, no qual evoluem para a forma adulta e, cerca de um ano depois, produzem as primeiras microfilárias.

Inflamações podem ocorrer nos vasos e gânglios linfáticos devido à ação irritativa dos vermes ou de produtos por eles liberados. O tratamento dos doentes é feito com medicamentos que agem mais eficientemente contra as microfilárias do que nos vermes adultos. Os edemas podem ser reduzidos, mas, em alguns casos, a cirurgia plástica é necessária (mamas, escroto). O controle do inseto é difícil e deve incluir a eliminação dos criadouros das larvas (água parada) e uso de inseticidas contra os adultos.

Ciclo de Vida do Wuchereria bancrofti

2.5        Outros Nematelmintos

O grupo dos vermes cilíndricos inclui uma série de outros representantes parasitas. Podem ser desta-cados:

● Ancylostoma braziliensis é parasita intestinal de cães e gatos e, quando eventualmente atinge o homem não completa seu ciclo, realizando migrações cutâneas. Os animais defecam no chão e os ovos eliminados eclodem, liberando larvas que podem penetrar ativamente pela pele humana. Tais larvas são chamadas migrans porque percorrem a hipoderme, formando um rastro sinuoso e causando forte irritação e prurido. Isso é o que o povo habitualmente chama de bicho geográfico. A transmissão é feita usualmente em praias e parques infantis onde exista areia úmida freqüentada por animais.

● Strongyloides stercoralis é parasita intestinal, sendo encontradas no corpo humano apenas as fêmeas, que são partenogenéticas. Os machos são de vida livre. A infestação é ativa, feita através das larvas. Não há hospedeiro intermediário. O ciclo biológico é semelhante ao dos vermes do amarelão, com passagem larval por coração e pulmões antes do estabelecimento final no intestino. A estrongi-loidíase, como é chamada a doença que o verme provoca, produz distúrbios cutâneos, pulmonar e intestinal.

● Trichuris trichiura é o causador da tricocefalíase, moléstia intestinal. Monoxeno, infestação passiva, é transmitido por água e alimentos contaminados por ovos. Causa distúrbios intestinais.

● Trichinella spiralis é um verme pequeno, heteroxeno e de infestação passiva, habitante do intestino delgado humano. As larvas produzidas diretamente pelas fêmeas, após a cópula, perfuram a parede intestinal e, através do sistema circulatório, atingem os músculos, nos quais se encistam. O organismo reage  produzindo  um  fibrosamento  que  envolve  a larva. Após um ano, ela pode ser calcificada. A contaminação é feita pela ingestão de carne de porco malcozida contendo os cistos. Inflamações e fortes dores musculares compõem o quadro sintomatológico.

● Onchocerca volvulus é um verme heteroxeno que vive enovelado em nódulos subcutâneos de localização variável (cabeça, nádegas, tronco). Em cada nódulo há um casal, sendo a fêmea muito longa (40 cm de comprimento) e o macho bem menor (apenas 3 cm). O hospedeiro intermediário é o mosquito do gênero Simulium, o popularborrachudo. A infestação é passiva, sendo o verme, no estágio larval, inoculado na pessoa. Dermatites e lesões oculares são as manifestações mais freqüentes da doença, que é conhecida como oncocercose.

Fonte: Sistema COC de Educação e Comunicação

Anelídeos

1     Apresentação

O filo Annelida (do latim, annelus = pequeno anel) é composto por cerca de 9.000 espécies, que têm em comum o fato de apresentar o corpo cilíndrico, alongado e subdividido em segmentos com o formato de anéis. Tal segmentação também é constatada internamente, incluindo músculos, nervos e estruturas circulatórias, excretoras e reprodutoras.

Entre os anelídeos, encontramos as minhocas e assanguessugas, além de grande número de espécies marinhas e de água doce. Existem minhocas, como a brasileira Rhinodrilus fafneri, de Minas Gerais e, a australiana Megascolides australis, que superam 2 metros de comprimento e 2,5 cm de diâmetro. A maioria das minhocas, entretanto, mede apenas alguns centímetros de comprimento. Entre os representantes marinhos destacam-se os poliquetas, com tamanhos variáveis, existindo desde formas diminutas até seres, como Eunice gigantea, que atingem 3 metros de comprimento. As sanguessugas geralmente são pequenas, variando seu tamanho entre 10 e 200 mm.

1.1     Características Gerais

O modelo para o estudo dos anelídeos será a minhoca, talvez o mais conhecido entre todos os representantes do grupo. Lumbricus terrestris ePheretima hawayana são duas espécies comuns. Caracterizam-se, como todos os anelídeos, por um arranjo estrutural segmentado, sistemas de órgãos mais avançados para a manutenção da vida e uma ampla cavidade no corpo, na qual tais órgãos ficam alojados.

1.1.1     CELOMA

É o nome dado à cavidade geral do corpo dos anelídeos (do grego cele = cavidade), diferindo da cavidade endocorpórea dos nematelmintos por ser totalmente revestida pela mesoderme. Trata-se de um espaço amplo dentro do corpo, no qual os sistemas de órgãos ficam alojados. Os anelídeos são animais de corpo mole, nos quais o grande celoma é preenchido por um líquido e funciona como um esqueleto hidrostático que serve de apoio para a ação muscular, compensando a ausência de esqueleto rígido. Em outras palavras, a minhoca e os outros anelídeos funcionam como um sistema hidráulico.

1.1.2     METAMERIA

Também chamada segmentação, é a divisão linear do corpo em porções iguais denominadassegmentos ou metâmeros. Os anelídeos são os primeiros seres da escala evolutiva animal a apresentar esta característica, que também é encontrada em artrópodes e cordados, mas não de forma tão evidente. A metameria estende-se aos músculos da parede do corpo e a vários sistemas de órgãos. Isso acontece porque a cavidade celomática é compartimentalizada através de septos transversais em cada segmento. Isso permite que diferentes movimentos musculares possam ser feitos simultaneamente em diferentes regiões do corpo, o que é particularmente vantajoso para um animal alongado ao locomover-se através de uma galeria ou substrato mole, sobretudo no caso das minhocas, que são animais cavadores.

1.1.3     CERDAS

São pequenos filamentos quitinosos existentes em todos os segmentos do corpo da minhoca, com exceção do primeiro e do último. As minhocas apresentam quatro pares de cerdas por segmento, número que nos poliquetas é bem maior. As sanguessugas não possuem cerdas. As cerdas podem ser movimentadas em qualquer direção e estendidas ou retraídas por ação muscular, servindo como instrumentos de fixação quando o animal está em uma galeria ou movimentando-se sobre o solo. Em uma minhoca, as cerdas podem ser percebidas passando-se os dedos da região posterior para a anterior.

A) Porção do corpo de uma minhoca, mostrando região anterior do corpo.
B) Corte transversal num metâmero do corpo

1.2     Organização e Funcionamento

O corpo da minhoca é longo e cilíndrico, levemente afilado nas extremidades, com a face dorsal um pouco mais escura que a ventral. Um animal adulto apresenta, em média, 150 segmentos anelares. Não há cabeça diferenciada. A boca abre-se na extremidade anterior, e é recoberta por uma estrutura carnosa chamadaprostômio, enquanto o ânus é uma fenda posterior. Os segmentos são contados a partir da extremidade anterior; assim, a boca está no primeiro segmento, e o ânus no último segmento. Nos oligoquetas em geral, alguns segmentos adjacentes ficam espessados e dilatados por glândulas responsáveis pela secreção do material que forma os casulos, nos quais os ovos se abrigam. Esta região glandular é chamada clitelo e cobre parcial ou totalmente os segmentos, formando uma faixa mais clara ao redor do corpo. A posição do clitelo é variável, mas, normalmente, fica situada na metade anterior do animal, envolvendo cerca de 10 segmentos. Os poros excretores e as aberturas reprodutivas são diminutos orifícios encontrados na superfície corporal.

A parede do corpo é composta por uma cutícula fina secretada pela epiderme uniestratificada subjacente, na qual se encontram numerosas glândulas produtoras de um muco lubrificante, além de muitas células sensitivas. Abaixo da epiderme, há uma fina camada demúsculos circulares e, outra mais espessa, demúsculos longitudinais. Essas camadas trabalham de forma antagônica: a contração da musculatura longi-tudinal encurta  o  corpo  do  animal  ao  mesmo  tempo em que aumenta seu diâmetro, enquanto a contração da musculatura circular produz o efeito oposto, isto é, o animal estica e seu diâmetro é reduzido. Enquanto uma camada se contrai, a outra relaxa. É assim que a minhoca executa o característico movimento de rastejamento e pode realizar a atividade de escavação de galerias. Oscilações de pressão do líquido celomático e o trabalho de apoio das cerdas colaboram para a execução dos movimentos.

O corpo da minhoca consiste basicamente de dois tubos concêntricos: a parede do corpo externa e o tubo digestivo retilíneo interno. O espaço entre eles é a cavidade do corpo ou celoma, preenchido por um líquido e compartimentalizado por uma série de septos transversais. Na maioria das minhocas, cada compartimento celomático comunica-se com o meio externo por meio de um poro dorsal, pelo qual pode sair fluido celomático, ajudando a manter o tegumento úmido. Algumas minhocas de grande porte são capazes de esguichar este líquido a vários centímetros de distância, quando perturbadas.

Esquema simplificado do movimento de uma minhoca. Depende da movimentação das cerdas e das contrações alternadas das musculaturas circular e longitudinal

As minhocas são saprófagas e alimentam-se de matéria orgânica morta, sobretudo vegetal. Além de consumir a matéria em decomposição na superfície do solo, podem arrastar folhas para o interior de suas galerias. Também usam o material orgânico do solo, que é ingerido durante a escavação. O tubo digestivo é completo e mostra grande especialização nas suas diversas partes componentes. O alimento é umedecido por secreções na cavidade bucal e empurrado para dentro com o auxílio dos músculos da parede da faringe, que atua como uma bomba sugadora. Passa pelo esôfago, que está ligado a glândulas calcíferas, produtoras de carbonato de cálcio, que neutralizam a acidez do alimento. É então armazenado tempora-riamente no papo[1] e depois passado para a moela[2] de paredes musculares, na qual é triturado com a ajuda de grãos de areia. Vai para o intestino, no qual sofre digestão enzimática ao nível extracelular. Expansões laterais, os cecos intestinais, e uma dobra interna, a tiflossole, contribuem para ampliar a superfície de digestão e absorção dos alimentos. Os resíduos são eliminados pelo ânus.

Nas minhocas não há sistema respiratório organi-zado, sendo as trocas gasosas executadas pelos capilares sangüíneos que existem na epiderme úmida. Entre os poliquetas, são comuns estruturas filame-tosas chamadas brânquias, altamente vascularizadas e que realizam trocas gasosas diretamente com a água.

Os anelídeos são os primeiros animais da escala zoológica a apresentar um sistema circulatório. O sangue é vermelho graças à presença de hemoglobina, que não está contida em glóbulos vermelhos. Circula todo o tempo no interior de vasos distribuídos pelo corpo do animal, o que caracteriza um sistema circulatório fechado. Vasos contráteis especiais, locali-zados na região anterior do corpo, são os responsáveis pela propulsão do sangue, fazendo o papel do coração.

O sistema excretor é constituído de um par denefrídios por segmento do corpo. Cada nefrídio é uma espécie de bomba adaptada a retirar excretas do celoma e dos vasos sangüíneos que o cercam e eliminá-los para fora do corpo pelos poros excretores ventrais, na forma de uma espécie de urina, rica em amônia e uréia, mantendo a estabilidade química do organismo.

O sistema nervoso é igualmente segmentado, sendo formado por um par de gânglios cerebrais situado acima da faringe. Dele parte um cordão nervoso ventral que se estende até a extremidade posterior. Em cada segmento, projetam-se do cordão nervoso dois gânglios menores. Vários prolongamentos nervosos alcançam todas as regiões do corpo. Células sensitivas epidérmicas percebem estímulos mecânicos e luminosos, além de detectarem níveis de umidade. A segmentação do sistema nervoso permite que um fragmento da minhoca, separado do restante do corpo, continue a se mover, embora sua orientação quanto a estímulos ambientais, como a luminosidade, fique prejudicada, pois depende da ação coordenadora dos gânglios cerebrais.

1.3     A formação do Húmus

As minhocas vivem em solo úmido, no interior de túneis e galerias subterrâneas. São muito sensíveis à luz, e possuem hábitos noturnos: durante o dia permanecem nas tocas e à noite saem, quando, então, podem se acasalar. Ao cavar suas galerias, engolem parte da terra que contém detritos e avançam aprofundando-se no solo. Para que as galerias não sejam obstruídas, as fezes são colocadas na superfície, onde formam pequenos montes de terra. Algumas espécies produzem excrementos de tamanho enorme, como os de Hyperiodrilus africanus, semelhantes a uma torre, que pode atingir 8 cm de altura e 2 cm de diâmetro. Os sistemas de galerias, a matéria vegetal que levam para dentro da terra e as fezes depositadas na superfície são muito úteis ao solo, pois permitem maior arejamento e facilitam a penetração de água, possibilitando maior desenvolvimento das raízes e o crescimento das plantas. O material vegetal digerido subterraneamente fornece mais matéria orgânica ao solo, adubando-o e aumentando sua fertilidade. Ao enterrar os detritos e depositar as fezes na superfície, revolvendo o solo, as minhocas contribuem para a formação do húmus, a camada de matéria orgânica que recobre a terra. Por isso se diz que solo rico em minhocas geralmente é solo fértil.

2     Classificação e Reprodução

2.1     Classificação

Um dos critérios habitualmente utilizados para a classificação dos anelídeos é a quantidade e a distribuição de cerdas pelo corpo do animal. Dessa maneira, divide-se o filo Annelida em três classes:

a) Classe Oligochaeta

(do grego, oligos = pouco; chaete = espinho ou cerda)

Compreende mais de 3.000 espécies. São os anelídeos com poucas cerdas por segmento. Aqui estão as minhocas, de ambiente terrestre, e uma grande variedade de pequenos animais encontrados em água doce.

Aspecto externo da minhoca. Lumbricus terrestris

b) Classe Polychaeta

(do grego, poly = muito)

É a maior classe, com mais de 8.000 espécies. São todos marinhos e caracterizam-se por apresentar muitas cerdas em cada segmento do corpo. Estas chegam a formar apêndices chamados parapódios, úteis na locomoção. Diferem das minhocas também pelo fato de apresentarem cabeça diferenciada nas formas móveis.

Os poliquetas são anelídeos marinhos muito diversificados. Alguns cavam buracos na areia ou no lodo de praias. Outros rastejam no fundo do mar, escondendo-se sob pedras. Há também os que ficam permanentemente no interior de tubos calcários ou membranosos secretados por eles próprios ou ainda formados por grãos de areia aglutinados graças a um material cimentante. Chaetopterus, por exemplo, vive permanentemente em um tubo com forma de U, medindo até 2 cm de diâmetro, mantido com as duas aberturas fora da areia. Os poliquetas rastejantes geralmente são predadores, capazes de se mover com rapidez, apresentam mandíbulas e estruturas sensitivas bem desenvolvidas. Os tubícolas são filtradores, alimentando-se de partículas em suspensão na água ou de minúsculos organismos que são capturados com o auxílio de grande número de filamentos que se projetam para fora do tubo.

Poliqueto marinho

Poliqueto tubícola

c) Classe Hirudinea

Contendo cerca de 500 espécies de organismos marinhos, de água doce e terrestres, esta é a classe das sanguessugas que têm o corpo desprovido de cerdas. São os anelídeos mais diferenciados dos demais.

As sanguessugas podem ser encontradas no mar, em água doce e no solo úmido. Têm o corpo liso com uma ventosa fixadora em cada extremidade. A boca localiza-se no meio da ventosa anterior. São geralmente ectoparasitas hematófagos, alimentando-se do sangue de diversos animais. Para isso, prendem-se ao corpo dos hospedeiros e, com o auxílio de pequenos dentes, perfuram sua superfície corporal, pela qual o sangue escorre. O processo é indolor e o sangue flui sem parar, pois a sanguessuga secreta um anestésico e um anticoagulante. Algumas horas depois, desprende-se, repleta de sangue e pode passar muito tempo realizando a digestão. A Hirudo medicinalis (nome científico da sanguessuga) foi bastante usada para a retirada de sangue de pessoas doentes, em um procedimento denominado sangria. Comprovou-se que sobrevivem sem se alimentar até um ano e meio e, como necessitam de 200 dias para digerir uma refeição, não precisam ingerir sangue mais que duas vezes por ano a fim de desenvolver-se e crescer.

2.2     Reprodução

Entre os poliquetas e os oligoquetas há uma certa capacidade regenerativa, permitindo a recuperação de partes do corpo perdidas por acidente ou experimentalmente. Os processos sexuados são os mais comuns. As minhocas são monóicas, sendo que cada animal apresenta aparelhos reprodutores masculino e feminino completos. Entretanto, como os gametas produzidos por cada um deles não amadurecem ao mesmo tempo, a autofecundação é impraticável; é, então, necessária a participação de dois animais para que a fecundação se realize. Os aparelhos reprodutores das minhocas são ventrais e anteriores.

As minhocas podem se reproduzir durante todo o ano, mas são mais ativas com tempo quente e úmido. O acasalamento geralmente ocorre à noite e requer de 2 a 3 horas. Duas minhocas que estão com testículos maduros e produzindo espermatozóides deixam suas tocas, aproximam-se e encostam as superfícies ventrais anteriores: a porção anterior de uma dirigida para a porção posterior da outra. Isso é feito de tal maneira que as aberturas genitais masculinas de um animal fiquem conectadas com os orifícios dos receptáculos seminais do outro. Os animais podem ser mantidos nesta posição graças a um revestimento mucoso comum que o clitelo secreta. Os espermatozóides de cada minhoca são expelidos pelos poros genitais masculinos e entram nos receptáculos seminais da parceira. Após este encontro, os animais separam-se. Há então uma troca recíproca de espermatozóides, caracterizando uma fecundação cruzada.

Acasalamento de minhocas, que pode levar 2 horas, com troca de espermatozóides.

 Dois ou três dias depois da separação das minhocas, o clitelo de cada uma forma uma túnica mucosa envolvida por uma camada protetora mais firme feita de quitina. Os movimentos musculares empurram a túnica para a frente do corpo, ao longo do animal. Quando passa pelos poros genitais femininos, recolhe os óvulos maduros que o animal produziu e, continuando para a frente, apanha os espermatozóides recebidos da outra minhoca, que estavam armazenados em receptáculos seminais. Quando esse envoltório desliza sobre a extremidade anterior do animal, suas pontas se fecham e retêm os gametas, ocorrendo então a fecundação. Este envoltório que recolhe os gametas no qual ocorre a fecundação é chamado casulo e, dentro dele, os embriões se desenvolvem diretamente em novas minhocas, não havendo estágios larvais. Os casulos têm cor amarela e, dependendo da espécie, podem conter de 1 a 20 ovos. Na minhoca Lumbricus terrestris apenas um dos ovos se desenvolve.

Após o acasalamento, as minhocas se separam e cada uma formará o casulo que recolherá os gametas e será depositado na terra.

As sanguessugas são também hermafroditas e não apresentam estágios larvais. Realizam uma cópula semelhante à das minhocas e também produzem casulo. Já os poliquetas, em sua maioria, têm sexos separados (dióicos) e, diferentemente dos outros anelídeos, só apresentam gônadas na época reprodutiva. A fecundação ocorre no mar e há um estágio larval (larvatrocófora). Alguns poliquetas, como Eunice viridis, o verme palolo das ilhas Fiji, liberam gametas em quantidade tão grande que a água torna-se leitosa. Podem se deslocar para a superfície enquanto liberam os gametas, comportamento conhecido comoenxameamento. Isto reúne muitos indivíduos sexualmente maduros e aumenta a probabilidade de fecundação. Há evidências experimentais de que as fêmeas produzem substâncias que atraem os machos e estimulam a liberação dos espermatozóides. Estes, por sua vez, estimulam a liberação dos óvulos. Os nativos da ilha recolhem grandes quantidades de vermes enxameantes, que são considerados um saboroso petisco.

Fonte: Sistema COC de Educação e Comunicação